Orgulho gay, porquê ?
   Blog Diversidade   │     23 de junho de 2016   │     0:00  │  0

Artigo

Por: Fernanda Câncio – licenciada em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Iniciou a sua actividade profissional em 1987 no jornal Expresso, passando depois para a revista Elle onde permaneceu até 1991. Até 1997 trabalhou na revista Grande Reportagem. De 1996 a 2002 exerceu a sua atividade no canal de televisão SIC efectuando reportagens e como editora do programa Esta Semana. De 1997 a 2003, integrou a redacção da Notícias Magazine, revista de domingo dos jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias.

Conheço e sou amigo de homossexuais, que não precisam de andar a mostrar o que são, são-no simplesmente e só quem convive com eles se apercebe… Vivem a sua homossexualidade em paz interior, e porque assim são nunca se sentiram discriminados, nem segregados em nenhum aspeto da vida, ao contrário de alguns e algumas que, se pudessem, andavam com um cartaz a anunciar o que são.” É um comentário a uma notícia do DN sobre o hotel do Minho que no site avisava “gays e lésbicas” para não fazerem reserva pois ser-lhes-ia vedada a entrada. É de ontem. Ou seja, cinco dias depois do massacre de Orlando, numa discoteca frequentada sobretudo por homossexuais e perpetrado por um terrorista que, de acordo com as notícias, se enojara com o beijo de dois homens.

Há muitos comentários assim por essa internet fora, por esses cafés e cabeças fora. Há-os aliás bem piores, escritos por portugueses, a festejar aquelas 49 mortes ou a acusar “os homossexuais” de “usarem Orlando para se vitimizarem”. Escolhi este por demonstrar a ideia, tão comum, de que os homossexuais “só têm problemas se se exibirem.” As pessoas que escrevem isto e se assumem, supõe-se, heterossexuais nunca se coibiram de dar a mão ou enlaçar um namorado/a; de o/a beijar na rua, de lhe fazer uma festa, de dançar “agarrados” numa discoteca; de brincar com ele ou com ela numa piscina, de dormir abraçados na praia; de fazer do seu casamento a festa mais ruidosa possível. Ou seja, nas palavras do comentador, nunca se coibiram de “andar com um cartaz a anunciar o que são”. Aliás, se forem homens, é possível que considerem seu direito assediar perfeitas desconhecidas no espaço público, tocá-las até. Foi devido à banalidade do exibicionismo hetero agressivo de homens sobre mulheres, e não decerto por causa do “exibicionismo homo”, que o contacto sexual físico (apalpões) e as propostas sexuais (assédio verbal) não desejados foram criminalizados. Com grande coro de protestos, lembre-se.

Considerar que mesmo se agressivo e criminoso o “exibicionismo hetero” é “normal” mas que demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo são ofensivas a ponto de admitir violência como reação aceitável: é mesmo isto que estas pessoas defendem. Aqui, Portugal, Europa, não na Arábia Saudita. Querem ter o poder de dizer aos homossexuais que são menos pessoas, com menos direitos; que, “sendo o que são”, devem coibir-se de o “anunciar”. Esconder, para não incomodar. Ou habilitarem-se. Ao ostracismo, ao gozo, ao insulto, à agressão. Aniquilações de vários tipos, todas a dizer o mesmo: desaparece, cala-te, esconde-te, tem vergonha, metes nojo; não existas, não sejas. Morre. É contra estas mortes, as simbólicas e a real (em Orlando e tantos outros lugares) que se fizeram os gay pride. Pride de orgulho, mas também de exibição, de grupo de gente que dá nas vistas. É mesmo para isso, para sermos vistos, que marchamos. Amanhã, no Príncipe Real, às cinco da tarde.

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