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Sexo anal, o último tabu do homem hétero
   20 de março de 2021   │     18:46  │  0

O que você, mulher, pensaria se o seu parceiro explicitasse o desejo de ser penetrado no ânus durante a relação sexual? E você, homem, gostaria de ter ou já teve essa experiência ou nem pode ouvir falar no assunto? Antes de dar a resposta, saiba alguns detalhes sobre essa prática. E o primeiro deles é que essa região do corpo é igual em homens e mulheres e ambos podem ter prazer a partir de estímulos nessa parte do corpo.

Não cabe dúvida de que o ânus é uma zona erógena com uma enorme carga simbólica, cultural e social. Durante muito tempo foi o anticoncepcional mais seguro e a única maneira que as mulheres tinham de chegar virgens ao casamento, embora não inexperientes. Talvez por isso, entregar o traseiro era sinônimo de lascívia e entranhava também um grau importante de submissão.

Na Grécia e Roma antigas, como conta Valérie Tasso em um artigo a respeito, “não existia nenhum impedimento pelo qual essa zona não pudesse ser utilizada por um homem para o prazer, independentemente de que fosse o ânus de uma mulher ou o de outro homem. Só havia uma regra de ouro que nenhum homem que se prezasse podia violar: devia ser sempre o agente ativo, e nunca um mero sujeito passivo (isso era coisa de mulheres, escravos ou efebos).

Há alguns anos, começou a falar-se do bud sex (bud nesse contexto significa colega ou amigo). Homens héteros que mantêm relações homossexuais, mas que não se consideram gays. Além disso, muitos exibem também condutas um tanto homofóbicas.

Em 2017, um sociólogo da Universidade do Oregon, Tony Silva, dedicou-se a estudar este fenômeno, que ocorria geralmente entre homens brancos que viviam num meio rural, nos EUA. Silva, a quem entrevistei para um artigo, relacionava esta prática aos múltiplos fatores que afetam a identidade sexual, como a cultura, o contexto social, o lugar, o momento histórico e as interpretações pessoais. “De fato”, dizia este sociólogo, “as identidades sexuais, tal como as conhecemos hoje em dia (héteros, gays, lésbicas, bissexuais etc.), só foram classificadas entre meados e o final do século XIX, e a forma de entendê-las não é a mesma em todo o mundo. Mas não só isso: como se viu no estudo, pessoas com a mesma cultura podem ter práticas sexuais similares, mas interpretá-las de formas distintas, dependendo do conceito que tenham da sua própria sexualidade”.

Para Silva o termo bud sex poderia ser aplicado àquelas relações que seus participantes interpretam como ajudar um amigo (em que está ausente o fator romântico), entre homens brancos e heterossexuais, ou secretamente bissexuais. São encontros secretos, sem consequências e sem associação nenhuma a ideias como feminilidade ou homossexualidade.

Nesta evolução da conduta sexual, alguns homens cogitam agora explorar, na própria carne, o prazer que o sexo anal pode lhes proporcionar com suas parceiras. “Mas fazem isso muito timidamente e procurando sempre uma permissão profissional ou social”, observa Raúl González Castellanos, sexólogo, psicopedagogo e codiretor do Ars Amandi, centro de terapias sexológicas e psicológicas em Madri.

“O beijo negro ou anilingus [estimulação oral do ânus], praticado por sua parceira, é algo mais fácil de aceitar para um hétero, mas o fato de ser penetrado já é outro assunto”, diz González Castellanos. Serena, massagista erótica que trabalha em Madri e se anuncia na Internet, reconhece que muitos homens lhe pedem o extra do pegging (penetração anal com um dildo e um arnês). “São heterossexuais, mas querem provar esta prática ou já a provaram e acham muito excitante. Entretanto, não se atrevem a pedir às suas mulheres ou parceiras, por medo da sua reação”, conta Serena.

Anos atrás, guardei um recorte do EL PAÍS sobre um espetáculo — um monólogo que a atriz Isabelle Stoffel apresentou na capital espanhola e no Festival do Edimburgo, lá por 2013. A obra se chamava A Rendição, falava de sexo anal, e Stoffel argumentava teorias como estas: “No cu, a verdade sempre vem à luz. Um pau num cu é como a agulha de um detector de mentiras. O cu não mente: se ele mente, dói em você”. Ou esta outra: “Na sodomia, confiança é tudo. Se você resistir, podem te machucar de verdade. Com esta prática aprendi muito, mas sobretudo aprendi a me render”.

O ponto G masculino

“A zona localizada entre os testículos e o ânus (incluindo também este) é uma zona muito sensível”, diz Marta Jesús Camuñas, sexóloga e psicóloga da Amaltea, centro de educação e medicina sexual em Zaragoza. Aí fica o períneo e muitos localizam o ponto G masculino, no interior do reto, a 4 ou 6 centímetros de profundidade. “É uma zona em contato com a próstata, que alguns homens relacionam com uma sensação muito prazerosa. Embora, como ocorre no sexo, o prazer dependa de muitos fatores, além do fisiológico. Há a situação e a companhia, que influenciam poderosamente no desejo”, afirma a especialista.

Os benefícios da massagem prostática é outro dos argumentos que os curiosos ou os amantes desta prática esgrimem. “Qualquer parte do corpo que receba uma estimulação correta será beneficiada”, comenta González Castellanos, “mas ainda se sabe pouco a respeito, embora já tenha ficado demonstrado que a ejaculação frequente não é boa apenas para a espermatogênese [produção de espermatozoides], mas também para adiar os problemas de próstata, apesar de antigamente dizerem que estes transtornos eram o castigo divino aos homens promíscuos. Levar a zona anal em conta também pode ser uma opção sexual a mais para homens que, por determinadas circunstâncias, não tenham ereções”, conclui o sexólogo.

Para os que estiverem dispostos a explorar a porta de trás, sem medo das etiquetas ou preconceitos, González aconselha que “seja algo combinado entre as partes e que haja um mínimo ingrediente de curiosidade e desejo. É preciso também reforçar a higiene e ir muito devagar, já que a musculatura do esfíncter anal é concêntrica e será preciso dilatá-la pouco a pouco”. As lojas de brinquedos eróticos já dispõem de pequenos dildos e de lubrificantes especialmente desenvolvidos para essa área delicada. A zona da verdade, como a chamava Stoffel.

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Homens héteros fazem mais sexo com outros homens do que imaginamos
   27 de dezembro de 2015   │     2:37  │  2

para Jane Ward, especialista em estudos femininos da Universidade da Califórnia, o sexo entre homens heterossexuais é bastante comum

para Jane Ward, especialista em estudos femininos da Universidade da Califórnia, o sexo entre homens heterossexuais é bastante comum

As pessoas são realmente controversas quando o que está em questão é a sexualidade alheia. Em um mundo ideal, onde cada um entendesse que ninguém tem nada a ver com o que as pessoas fazem entre quatro paredes, isso não seria problema, mas a verdade é que a lesbofobia, a transfobia e a homofobia impedem que os intolerantes tenham o mais simples dos raciocínios: cada pessoa tem o direito de fazer o que quiser com relação à própria vida sexual.

O fato é que a sexualidade humana é muito mais diversificada do que supomos. Não é apenas uma questão de hetero, homo e bi. Só a escala Kinsey, que é utilizada como referência nesse sentido, divide a sexualidade em SETE níveis.

O machismo, a homofobia e a ideia de que a homossexualidade é algo negativo sugerem que homens heterossexuais jamais – isso mesmo, jamais! – possam experimentar ou vivenciar o prazer ao lado de outro homem. Mas, para Jane Ward, especialista em estudos femininos da Universidade da Califórnia, o sexo entre homens heterossexuais é bastante comum.

E não estamos falando de goys, de homens bissexuais ou de gays que estão no armário. Mas de homens que se definem como héteros, que já tiveram experiências homossexuais e que, pasmem, não “viraram” gays. “A concepção que a nossa sociedade tem da heterossexualidade dos homens é fora da realidade”, declarou.

Difícil de digerir? É só pensar naquela sua amiga hétero que já ficou com uma menina ou até transou com uma garota, mas que continua preferindo homens e se diz hétero. O que acontece é que a flexibilidade da sexualidade da mulher é mais aceitável que a dos homens, apesar de nem sempre positiva. “A crença de que a sexualidade da mulher é mais receptiva só reforça o mito de que as mulheres estão sempre disponíveis sexualmente”.

Autora do livro “Not Gay: Sex Between Straight White Men (Não gay, Sexo entre Dois Homens brancos e Heterossexuais), Jan diz em entrevista ao Science of Us que a heterossexualidade de homens é muito mais frágil do que se aparenta. E destaca que geralmente tais momentos, embora sejam comuns, sempre são munidos de uma justificativa – falta de mulheres em lugares como prisões ou no exército – e defende que nem sempre elas correspondem a uma realidade.

NA PRISÃO, NO EXÉRCITO, EM TODO LUGAR

Ela afirma que muita gente sublima tais experiências, dizendo que elas ocorreram em lugares onde faltavam mulheres disponíveis. “Mas o que falar sobre as casas de banho ou bares ou entre as gangues de motociclistas ou a outros contextos em que o sexo não dependia do lugar? E é essa uma das questões: O que acontece quando puxamos essas evidências juntos?”, diz.

Outro exemplo ocorre entre garotos de programas e até em fraternidades universitárias nos Estados Unidos, onde os jovens se permitem transar um com os outros. E a relação sexual sequer é vista como sexo, mas sim como uma brincadeira. Dizem até: “Sou tão hétero que um cara pode me masturbar sem que isso gere alguma consequência”.

Nos anos 60, era comum a prática de homens casados com mulheres fazerem sexo oral um nos outros em banheiros públicos, parques ou metrôs. Um sociólogo escreveu que, como eles eram católicos e não podiam usar preservativos, uma vez que não queriam ter mais filhos, eles foram “forçados” a buscar secretamente o sexo em banheiros com outros homens.

“A justificativa da necessidade homossexual aparece muito: homens têm de fazer isso por X ou Y razão, quando não há outra escolha. Acho que as pessoas estão realmente comprometidas com esta ideia, por isso que muitos homens não aceitam escolher uma relação homossexual como algo que esteja acontecendo com eles. É por isso que a identidade heterossexual continua intacta, quando essa lógica se aplica”.

Em outras palavras, é só prazer, experimentação, sem grilos ou problemas…

SIM, SÃO HÉTEROS

“Quero dizer que não estou de forma alguma interessada em chamar esses homens de bi ou gay. Eles são homens que são héteros e, como a média de homens héteros, já tiveram na adolescência ou em outro momento do passado experiências com outros homens. Eles saem com mulheres, se casam com mulheres e é por isso que não acho produtivo chamá-los de bissexuais, pois a própria definição é significativa e um direito”, alega.

É por esse motivo que, no Brasil, os sistemas de saúde identificam muitos homens como HSH – aquele que transa com outro homem, sem se definir como homossexual ou bissexual. E é por esses e outros motivos que a homofobia – o preconceito contra aquele que transa, sente afeto e se identifica como LGB – é um mergulho na hipocrisia e na ignorância.

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