Category Archives: Saúde

Prevenção ao câncer de mama vale também para transexuais
   Blog Diversidade   │     1 de abril de 2021   │     13:50  │  0

Desconhecimento da sociedade faz pensar que as pessoas trans não fazem parte do alerta ao Outubro Rosa – mas muito pelo contrário.

A gente não para pra refletir, mas as pessoas transexuais e transgêneras também fazem parte do grupo em que a campanha Outubro Rosa tanto visa conscientizar. Os riscos do câncer de mama e de colo do útero vale para todas elas. Aliás, para todo mundo. Independente de gênero ou sexualidade, as doenças oferecem até 95% de chance de cura quando diagnosticadas precocemente.

Fazer o autoexame, realizar consultas periódicas e manter hábitos saudáveis. Essas simples recomendações são, por desconhecimento da sociedade, voltadas mais as mulheres cisgênero – aquelas que se identificam com o gênero designado em nascimento – do que às mulheres transexuais.

“Por causa do uso contínuo de hormônios, já é comprovado cientificamente que as mulheres trans têm cerca de 47 vezes mais chances de desenvolver câncer de mama do que os homens cis, sendo que pra eles é bem raro, cerca de 1% do total dos diagnósticos”, explica Mikaella Lima, coordenadora de políticas públicas LGBT, vinculada à SDHU (Subsecretaria de Defesa dos Direitos Humanos) da prefeitura de Campo Grande.

“Todas as pessoas trans deveriam buscar o atendimento médico que possam prolongar suas vidas, a ter mais qualidade e informação”, recomenda Mika.

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A ex-Miss Trans de MS, que já tem implante mamário, faz a prática do autoexame (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde os 19 anos, Emanuelle Fernandes faz uso de hormônios femininos. Hoje em dia, a ex-Miss Trans de MS já conta com a prótese mamária, 400 ml em ambos os seios.

“Eu já sabia dos riscos atrelados ao uso indiscriminado de hormônio e a possibilidade do câncer de mama, mas no universo transexual isso é muito pouco divulgado e discutido, inclusive entre as próprias trans. Particularmente, sempre fiz os autoexames, e recomendo para minhas amigas”, afirma.

Neste ano, Manu foi surpreendida com a proposta de ser embaixadora de uma campanha de prevenção ao câncer de mama pelo Hospital de Amor (antigo Hospital de Câncer de Barretos), que inclusive conta com uma unidade aqui em Campo Grande.

“É uma forma de eu informar as meninas transexuais sobre a causa, de mostrar a importância da gente ficar atenta ao nosso corpo, aos próprios sinais, e sempre estar em dia com os exames. Pessoas trans também podem ter esse tipo de doença, sim”, comenta.

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Lorenzo é homem trans, e também entende que não pode discuidar de sua saúde (Foto: Arquivo Pessoal)

No Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, Lorenzo Sullivan Macedo já faz hormonioterapia há 1 anos e 8 meses e, por isso, já teve redução das mamas. O sonho dele é fazer a mastectomia masculinizadora, isto é, a cirurgia de retirada das mamas e readequação plástica do peito.

“Eu sempre tive acompanhamento de médicos especializados lá no Ambulatório Transexualizador. Desde o início, eles me alertaram sim que enquanto homens trans eu ainda faço parte do Outubro Rosa, mas confesso não saber que mesmo com a mastectomia feita ainda haveria o risco de câncer”, admite.

Recentemente, Lorenzo vem tendo episódios da chamada descarga mamilar, que é a liberação de secreção pelos seios. Isso não é necessariamente anormal, mas é bom ficar alerta.

“Fiz exames anteriores, mas a liberação acabou parando. Agora que voltou, já marquei um novo ultrassom. Como homem trans, estou bem mais atento e cuido melhor do meu corpo do que quando eu era uma mulher cis. É de extrema importância tudo isso”, disse.

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Lorenzo junto de sua namorada (Foto: Arquivo Pessoal)

Para elxs – A Sub-LGBT/MS (Subsecretaria de Políticas Públicas para a Promoção LGBT) do Governo do Estado juntamente com representantes do Hospital de Amor, promoverão atendimentos gratuitos de saúde para as pessoas transexuais e transgêneras, isso por meio do Centro de Referência em Direitos Humanos de Prevenção e Combate à Homofobia.

“Queremos incluir essas pessoas, fazer com que se sintam confortáveis em buscar o atendimento. Reconhecemos que existe resistência, talvez até um bloqueio, mas estamos preparados para atender qualquer pessoa dentro das suas especificidades. Trabalhar amor e humanização por meio dos exames preventivos e de mamografia”, explica a enfermeira Glauciely do Nascimento Pereira, responsável pela divulgação de educação e saúde do Hospital de Amor.

Para agendamentos, basta entrar em contato no telefone (67) 3316-9183 ou pelo e-mail: [email protected], e ter os documentos – CPF, RG, cartão do SUS e comprovante de residência – em mãos.

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As melhores saunas gay em Lisboa
   Blog Diversidade   │     16 de fevereiro de 2020   │     19:12  │  0

Nestas saunas gay nunca é Inverno

  1. Massagens, quartos escuros, tratamentos spa, festas com DJs e muita animação. Esqueça o frio, saia de casa e relaxe nas saunas gay da cidade.

O tabu, esse palavrão. A eterna bengala de tudo o que é, à partida, desconhecido ou tido como errado, a reacção facilitista ao diferente. Pois bem, aqui o tema é precisamente o contrário. Nos últimos anos a Lisboa do conservadorismo transformou-se e floresceu para um fantástico novo mundo, uma existência democrática, all serving, que abraça todos os credos. Não é de estranhar, portanto, que os espaços acompanhem a tendência e que a capital tenha hoje uma oferta particularmente atractiva quando o assunto é LGBT.

É certo que os bares são parte obrigatória do roteiro mas relaxe, as saunas também já o são, e este é o guia Time Out para que, independentemente do frio que o termómetro marque, possa tirar o casaco – e tudo o resto – e desfrutar. Aproveite as massagens, os tratamentos spa, as festas e siga noite dentro com as nossas sugestões.

As melhores saunas gay em Lisboa

Trombeta Bath - Sauna

Trombeta Bath

Bairro Alto

Do meio-dia de sexta até à madrugada de segunda, a Trombeta Bath, a sauna gay do Bairro Alto, está sempre a funcionar. Só para homens e muito frequentada por turistas, a sauna tem um staff de massagistas disposto a “many kinds of pleasure”, entre as 12.00 e as 00.00, e com massagens a vários preços, a partir de 20€. O centro de rastreio rápido CheckpointLx também tem uma equipa na sauna, para testes gratuitos e anónimos de VIH, sífilis e vírus da hepatite C.

saunapolo56

SaunApolo 56

Avenida da Liberdade/Príncipe Real

É hetero friendly e a única sauna mista LGBT em território nacional. Aqui há sauna, banho turco, cascata de relaxamento, glory holes, gabinete de massagem (com ou sem massagista), cabines privadas com filmes eróticos, sala BDSM com sling, quarto escuro e sexshop. Também é possível alugar a SaunApolo56 para eventos, despedidas de solteiro, sessões fotográficas ou filmagens, num espaço que também é palco de festas sugestivas, como a Festa da Máscara e do Fetiche com Apagão ou a Festa Naturista.

Olissipo Bath

Fotografia: Francisco Santos

Gay

Olissipo Bath

Avenida da Liberdade/Príncipe Real

Uma recepção com bar, sauna, jacuzzi, duches, cabines “de relax” e um serviço de massagens profissionais (entre 30€, para uma massagem de meia hora, a 90€, para uma massagem com ventosas) são algumas das mordomias da sauna gay da Rua do Telhal.

Sauna Oásis

Avenida da Liberdade/Príncipe Real

Presença frequente nos roteiros gay da capital, o espaço pode não ser o argumento maior nesta sauna de pequenas dimensões, mas ainda assim a Oásis, próximo da Avenida da Liberdade, tem dentro um pequeno ginásio, serviços de massagem e um dark room que não deixa nada a dever à concorrência. A sauna está aberta a toda a comunidade gay mas é, definitivamente, muito mais popular entre clientes mais velhos, não sendo por isso a opção ideal para quem procura uma atmosfera de carácter mais jovem.

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Evento analisará o que existe de acessível para as trans na rede SUS em Alagoas
   Blog Diversidade   │     6 de fevereiro de 2020   │     10:06  │  0

Com o objetivo de analizar e diagnosticar os mecanismo de politicas públicas de saúde na rede SUS em Alagoas, como também propor melhorias a Oficina Espelhada sobre Saúde Trans, promovida pelo Coletivo LGBT+ Flutua da Faculdade de Medicina da UFAL, ocorre no próximo sábado, 08/02, às 8 horas da manhã no prédio da própria faculdade, localizado na cidade universitária.

O evento terá como palestrantes transexuais líderes do movimento contra transfobia em Alagoas, integrantes do Coletivo Flutua e uma representante do recém aberto Ambulatório Trans do HUPAA.

A ação tem como objetivo constatar o que há de protocolos e oficialidades no SUS com o que de fato é acessível para as pessoas trans em nosso Estado, até que ponto há preparo dos profissionais de saúde neste atendimento e outros.

Os participantes terá direito a certificado de 4h por participação, além de sair de lá com um olhar amplo dessas politicas de saúde.

Não precisa ser lgbT+ e nem profissional da área de saude para participar do evento e para mais informações, basta acessar o Instagram do Coletivo (@flutua.coletivo).

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13 anos de Luta pela cidadania LGBTI+ em Teotônio Vilela
   Blog Diversidade   │     14 de março de 2019   │     21:29  │  0

Para celebrar o Orgulho LGBTI+ a organização da sociedade civil Afinidades GLSTAL realiza, e a prefeitura de Teotônio Vilela apoia, as diversas atividades que acontecem neste fim de semana!

As iniciativas fazem parte do Projeto Afirmando Identidades e fazendo novas escolhas pro-saúde integral de LGBTI+ em Alagoas financiado pela UNESCO e acontecem a partir deste final de semana no município de Teotônio Vilela.
“Concurso escolhe, Miss Gay, Rainha da Parada e Miss Trans”
No sábado (16/03) às 21 horas, o Clube Vilelense receberá as candidatas que farão entrada em trage de glamour. Nessa etapa serão escolhidas as mais votadas pelo jurado que observarão os critérios de beleza, figurino e talento. A noite será dançante animada pelo DJ Jonh!
“Somos família” esse é o nosso slogan !
No domingo (17/03) a 13° Parada do Orgulho LGBT de Teotônio Vilela fará concentração a partir das 15 horas na pç. de eventos da cidade.

O cortejo seguirá com trio elétrico em direção a orla afirmando para a sociedade de que somos milhões de filhos e filhas, pais, mães, parentes e amigos ocupando todos cantos e contribuindo para todas as áreas do conhecimento. Contará com apresentações performáticas as mais diversas e show da Banda musical de Allana Cardoso.
Exposição “Transhow: A arte transgride, o corpo resiste!”
É um show de imagens de uma apresentação artística que aconteceu no Teatro de Arena e objetivou oferecer novos significados através da arte, enfatizando as lutas pela cidadania e os desafios do cotidiano de travestis e transexuais. As imagens são uma homenagem performática ao artista transformista Reinaldo Reis que foi brutalmente assassinado em atendado homofóbico.

As fotos produzidas nesses ensaio, são registros de Laudemi Oliveira do espetáculo artístico Transhow, realizado em homenagem a personagem de Reinaldo (Dryelly Reis). A exposição ficará no Centro Cultural de Teotônio Vilela, durante toda semana, Neste espaço será colocada uma tenda para prestar serviço a população com distribuição de preventivos, material informativo, também haverá exibição de filmes com temática homoafetiva.
SEMINÁRIO LGBT VAI DISCUTIR GENERO E SEXUALIDADE NOS SERVIÇOS DE SAÚDE

Terça feira (19/03), das 8:30 h às 17h, o auditório da Secretaria Municipal de Saúde de Teotônio recebe o Seminário Gênero e Sexualidade nos Serviços de Saúde que tem por objetivo demostrar que existem demandas especificas de saúde relacionadas a população LGBTi+ e as melhoras que podem ocorrer quando estes usuários são visto de forma integral e atendidos com respeito.
A programação do seminário traz quatro momentos de discursão em forma de palestras e painés com especialistas na área, abordando para construção de um novo cenário na saúde para o acolhimento qualificado, equânime e integral de LGBTI+.
O seminário tem apoio da Prefeitura de Teotônio Vilela, Prefeitura de Campo Alegre, Prefeitura de Pilar, Prefeitura de Junqueiro e Prefeitura de Maceió.

O seminário é gratuito, mas as inscrições estão sendo realizadas e articuladas de forma a garantir a participação de representantes destes municípios.
Informações:
Presidente do Afinidades GLSTAL – Jadson Andrade Fone: 996865317 e-mail: [email protected] e/ou Julio Daniel 991715115 / Marinho 991148884

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Um comprimido por dia para combater os fantasmas do HIV em Portugal
   Blog Diversidade   │     1 de maio de 2018   │     17:07  │  0

Rui Guerreiro é enfermeiro e toma PrEP há dois anos

A profilaxia pré-exposição (PrEP) começa agora a ser disponibilizada a um número limitado de pessoas, mas já há quem a tome há pelo menos dois anos. A compra é feita online e tem riscos e custos, mas a libertação do medo de contrair o vírus e o “empoderamento” em relação à sua própria vida sexual justificam, diz quem a usa.

Desde que surgiram os primeiros casos de HIV em Portugal, no início da década de 80, que, para Henrique (nome fictício), o medo de contrair o vírus andava de mãos dadas com o sexo. Um preservativo que se rompia podia ser uma sentença de morte. Instalava-se o “pânico absoluto”. Era preciso ter “muito cuidado”, lembra o professor universitário de 58 anos. A infelicidade associada ao sexo era uma realidade desde os seus tempos de estudante no ensino superior. Mas isso mudou quando começou a fazer a profilaxia pré-exposição (PrEP, do inglês pre-exposure prophylaxis) — um comprimido de toma diária ou intermitente que tem uma eficácia de 90% na prevenção da transmissão do HIV.

Diz-se hipocondríaco, pelo que, antes da PrEP, à ínfima possibilidade de um preservativo rompido, instalava-se o “terror”. Seguiam-se três meses de espera para fazer as análises que ditariam ou não o fim fatídico.

Quando um dia, há cerca de dois anos, foi convidado para assistir a um filme no Checkpoint Lx — centro comunitário em Lisboa dirigido aos homens que têm sexo com homens e que faz rastreio de infecções sexualmente transmissíveis, aconselhamento e referenciação aos cuidados de saúde e que tem acompanhado alguns homens que já fazem a profilaxia —, onde um “tipo americano explicava porque é que começou a fazer a PrEP”, identificou-se com a história. Daí até começar a tomar um desses comprimidos azuis todos os dias foi um instante.

Só havia um problema: a medicação em causa  não estava disponível em Portugal para quem a queria usar em regime profiláctico (só era disponibilizada para tratar quem já estava doente). Ajudou-o ter amigos médicos sensíveis ao tema e algum grau de literacia informática, uma vez que, até há bem pouco tempo, a única forma de aceder ao medicamento era através da Internet. Com todos os riscos associados à compra de medicamentos online.

O medicamento que contém tenofovir e emtricitabina, o Truvada, já existe no mercado português e faz parte do pacote de medicação de quem já é seropositivo. São estas duas substâncias activas que são também aconselhadas para a PrEP.

Recentemente, a PrEP passou a estar disponível no Serviço Nacional de Saúde, mas no quadro de um programa de acesso precoce que, numa primeira fase, disponibilizará o medicamento para ser usado enquanto profilaxia em doses suficientes para apenas 100 pessoas. Para terem acesso ao medicamento, as pessoas elegíveis “devem ser referenciadas na consulta de especialidade hospitalar de PrEP”,

A estratégia utilizada por Henrique e outros homens tem passado por comprar online o genérico (que não existe em Portugal).

 

Apesar da atenção redobrada dada pela comunidade dos homens que fazem sexo com homens à PrEP, Henrique sublinha que “também deve ser usada por homens e mulheres que têm vários parceiros do sexo oposto” e que a sugere a vários amigos heterossexuais. Em 2016, 96,8% das infecções por VIH ocorreram por via sexual. Dessas, 59,6% aconteceram entre heterossexuais e 37,2% entre homens homossexuais, revelam dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

A população a quem se dirige a PrEP é diversa e não se distingue pela orientação sexual. A Direcção-Geral da Saúde recomenda-a a “pessoas com risco acrescido de aquisição de infecção por HIV”, que podem não usar consistentemente o preservativo, ter parceiros sexuais seropositivos ou com estatuto serológico desconhecido e ter diagnósticos prévios de outras infecções sexualmente transmissíveis.

Então porque é que há mais homens homossexuais a fazer a profilaxia e a dar a voz pela sua liberalização? Isabel Aldir, directora do Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA e Tuberculose, explica que estão “mais sensibilizados” para o tema e muitos dos estudos que foram feitos sobre a PrEP tiveram como objecto de análise este grupo.

Rui Guerreiro é enfermeiro, tem 33 anos, e admite continuar a tomar o genérico, até que o medicamento seja disponibilizado num local onde seja “confortável” ir buscar a medicação. Para si, a PrEP significa “empoderamento”. E porquê? A resposta está-lhe na ponta da língua. “O ónus da decisão relativamente à minha saúde sexual está em mim.” O que esta medicação traz é “um sentimento de controlo”. E detalha: “Há uma relação directa entre sentir-me bem com a minha vida sexual e seguro das minhas práticas sexuais.”

Apesar de, ao contrário de Henrique, não ter acompanhado o início da epidemia em Portugal, o enfermeiro não esconde este carácter de controlo que a doença assume sobre a sua vida e da comunidade gay em geral: “O hiv paira sobre as nossas cabeças” e, nesse sentido, “a profilaxia é libertadora”.

O problema é que nem toda a gente achará o mesmo. “Há quem tenha a ideia que quem faz isto são pessoas mais promíscuas e isto lembra-me sempre aquela perspectiva moralista em relação à pílula contraceptiva.”

 

Preservativo vai ou fica?

Apesar de ser promovida como mais uma arma que complementa a luta contra a transmissão do HIV, também há quem sublinhe o risco de a PrEP levar as pessoas a descartar a utilização do preservativo, aumentando a taxa de transmissão de outras infecções sexualmente transmissíveis.

Numa entrevista ao PÚBLICO, no Dia Mundial da Luta contra a Sida (1 de Dezembro), Kamal Mansinho, ex-director do Programa Nacional para a Infecção HIV/sida, explicava: “Não conseguimos separar, numa análise muito cuidada dos números, se há, de facto, um aumento objectivo da não utilização do preservativo quando se toma PrEP.” Hoje, chegou-se “a um tempo em que o preservativo é um dos dispositivos de prevenção”. Mas, notava, “existem outros”.

Isabel Aldir também defende que os estudos “não mostram” uma menor utilização do preservativo por parte de quem faz PrEP. Mais: uma vez introduzida como resposta no SNS, o que está a acontecer por estes dias, desde que a DGS emitiu no final do ano passado normas nesse sentido, será o “contrário”. Uma vez na consulta, os médicos podem aproveitar esse contacto para falar sobre as diferentes dimensões da prevenção. O importante é que não seja “uma estratégia avulsa”.

Apesar de não descartar a importância da profilaxia, António Guarita, director técnico da Opus Gay, associação que defende os direitos das pessoas LGBTI (Lésbica, Gay, Bissexual, Transgénero e Intersexo), teme que se esqueçam que “a dita PrEP é apenas e só para o HIV e não é válida para as outras infecções”. Mas diz que concorda “perfeitamente” com a profilaxia em complemento ao preservativo e que até deve ser disponibilizada na comunidade.

Quando “utilizado sempre, sem romper, sem sair do sítio, do início até ao final das práticas [o preservativo] é de facto eficaz”, nota Rui Guerreiro. Mas nem sempre se poderá contar com ele, ou porque não é usado, ou porque se rompe. Além disso, “querer ou não usar preservativo depende de duas pessoas, a toma da profilaxia não”.

Já Henrique faz questão de sublinhar que tem “rigorosamente os mesmos cuidados” e não dispensa o preservativo.

Para Manuel (nome fictício), com 37 anos, o problema reside mesmo na utilização do preservativo. Diz que tem uma alergia, que lhe foi diagnosticada uma toxicodermatite, pelo que esta forma de protecção é um problema. Faz PrEP há um ano, mas apenas esporadicamente, quando antecipa alguma situação de risco. O preço — esta medicação importada custa cerca de 60 euros por embalagem — e a dificuldade de acesso são o que impede a toma diária.

Tanto para Rui como para Manuel, o início da toma da PrEP esteve associado a comportamentos ou situações que consideraram de risco. Rui recorda-se que “num curto intervalo de tempo” necessitou de fazer profilaxia pós-exposição (PEP, do inglês post-exposure prophylaxis) duas vezes — uma outra solução que consiste na toma de medicação anti-retroviral durante 28 dias e que deve ser iniciada até 72 horas após um comportamento de risco. Manuel já fez três e confessa que é “horrível”: há um grande “moralismo” por parte da comunidade médica.

Estigma persiste

Para Paolo Gorgoni, activista e seropositivo, a PrEP vem demasiado tarde. Quando foi infectado, em 2010, tinha 23 anos e esta profilaxia ainda não era difundida. “Pensei muitas vezes como teria sido se tivesse uma alternativa.”

O italiano que reside em Portugal há vários anos nota que ainda há “muito moralismo” em torno das práticas sexuais e que o preconceito em relação às pessoas seropositivas continua a sentir-se. Paolo defende que a PrEP pode ser uma ferramenta individual importante em “contextos de fragilidade”.

Nuno Carneiro é psicólogo clínico. Recorda-se dos primeiros casos de HIV em Portugal, quando ainda não se sabia bem como é que as pessoas se infectavam e morriam. No âmbito da terapêutica, “a PrEP é uma revolução muito grande”. Mas lança outra questão. Se é verdade que “os fantasmas da epidemia provocam muito medo” e fazem com que estas pessoas decidam tomar o assunto nas suas próprias mãos e comecem a fazer a medicação, também o é que, para outras, o início da toma da PrEP é adiado porque implica a realização de testes. Têm medo de ficar a conhecer o seu estatuto serológico.

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