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O dia que o camarote ‘só tinha viado’ e os héteros surtaram no Carnaval de Salvador
   Blog Diversidade   │     11 de fevereiro de 2018   │     16:40  │  0

Por:  Jorge Gauthier – Jornalista, adora Beyoncé e não abre mão de uma boa fechação!

-‘Aff! Só tem viado aqui hoje. Se eu soubesse não teria vindo’, bradava a moça loira de 1,6m com seu salto agulha e brincos de pedraria.

– ‘Que raça desgraçada desses viados até num camarote eles estão em bando’, reclamava o boy cafuçu tatuado abraçado na sua namorada.

– ‘Bora, desgraça! Sai logo desse banheiro’, gritava o engomadinho top na porta do banheiro .

– ‘ Não tenho nada com a sexualidade de vocês mas tem que nos respeitar’, exclamava o segurança homofóbico disfarçado de bastião da moral e dos bons costumes.

Adoraria que as frases e personagens acima fossem ficcionais ou delírios de um pesadelo carnavalesco. Não são. Essas e muitas outras – além de gestos, atos e ações – puderam ser vivenciadas ontem (10) no Camarote Skol Beats no Carnaval de Salvador.

A noite ,que teve shows de Claudia Leitte e Ju Moraes, atraiu um número expressivo de homens gays, mulheres lésbicas e pessoas trans para o espaço. Não houve nenhuma convocação em massa para que isso acontecesse, mas a afinidade do público LGBT com as atrações certamente provocou esse efeito. Resultado: o espaço estava completamente lotado de gays. E os heteros viraram minoria pelo menos nesse lugar e nesta noite. Aí que começaram os problemas.

A minoria hetero ficou acuada pelos cantos. Era estranho ver aquilo. Afinal, aquele espaço de escanteamento normalmente fica a cargo de nós, LGBTs. Desavisados – talvez – muitos se assustaram com a massiva presença de gays no camarote. Até aí tudo bem ter um estranhamento. O problema é que os atos dessa minoria pesaram nos ouvidos e sentimentos de quem estava por lá.

O que dizer da moça que, enquanto eu tirava uma foto com meu marido, falava na nossa direção que queria um homem e que achava um absurdo ter tanto gay no camarote? Eu até fui lá e expliquei PACIENTEMENTE : ‘-Moça, corrija sua frase. Nós somos homens. Uma coisa é o gênero outra é a orientação sexual’.

“Ah, meu filho eu quero um homem de verdade. Quero um namorado”, respondeu a jovem senhorita sendo acompanhada por dois seguranças do camarote que acenavam com a cabeça em sinal de concordância. O que dizer para uma pessoa que acha que um gay não é homem de verdade e que nós não poderíamos está ali? Desejar sorte para que ela encontre um namorado e que ela pare de ser preconceituosa.

Mas ela – infelizmente – não foi a única. A opressão hetero no camarote era impressionante. Os olhares de julgamento eram constantes e não foi raro ouvir a frase ‘ que desperdício dois homens tão bonitos se beijando’.

Vale aqui ressaltar e louvar a iniciativa da Skol em produzir e dialogar a diversidade nos seus produtos e ações (com já falamos diversas vezes aqui no Me Salte) . Contudo, o pior momento que presenciei veio justamente de funcionários contratados pelo espaço.

Por volta das 3h um grupo com cerca de 10 seguranças – vestidos de camisa polo amarela sem identificação de qual empresa pertenciam – entrou em um dos banheiros do camarote. Começaram a bater nas portas gritando palavras do tipo: ‘se eu pegar dois viados aí tendo eu quebro’ / ‘vocês acham que a gente tá aqui de palhaçada nessa desgraça’/ ‘Bora abre essa desgraça ai’ / ‘Não tem dinheiro pra pagar motel, desgraça’/ ‘Mete a porrada nessas desgraças’”.
Eles esmurravam as portas dos banheiros para tentar achar alguma cabine onde tivessem dois homens. Acharam uma cabine. Ai aumentaram os insultos, ameaças e as agressões verbais. ‘Se eu te pegar de novo você vai se arrasar’, gritava um dos seguranças.

Um dos ‘’’trabalhadores’’’’ que estava mais exaltado disse a frase que deixou claro o real motivo daquela ‘operação banheirão’: ‘Ninguém tem nada a ver com a sexualidade de vocês não. Agora vocês têm que respeitar a gente também e as pessoas que estão com vocês”.

Ao ser questionado por um folião do camarote – que filmou toda a cena – sobre o que os jovens teriam feito para desrespeitar eles o segurança começou a fazer ameaças. “Se acontecer alguma coisa comigo você me paga”, ameaçou o segurança disfarçado de bastião da moral e dos bons costumes.

Ali ficou claro que o problema não eram os atos que eventualmente pudessem está sendo praticados dentro da cabine pelos homens e sim o que isso atingia a heterossexualidade daquelas pessoas que ali estavam. Não acredito que a direção da Skol compactue com esse tipo de ato, mas fica aqui a sinalização pois isso macula a boa imagem do evento. Tivemos acesso ao vídeo, mas em função da segurança dos foliões que foram ameaçados não vamos divulgar.

Na orda de preconceito ‘sobrou’ até para Claudia Leitte. “Não sabia que Claudia era sapatão. Só pode ser pra ter tanto fã viado”, afirmava veementemente o hetero top para seu grupo de amigos. Detalhe: enquanto isso do alto da área vip o marido de Claudia olhava sua esposa – vestida de deusa – fazer seu show.

Os homens gays – que eram maioria – recebiam os maiores insultos dessa minoria hetero presente. Mas, as mulheres lésbicas também foram vítimas. Em uma cena que presenciei duas meninas se beijavam quando um homem com sotaque espanhol se aproximou delas querendo beijá-las. As meninas resistiram. Disseram não várias vezes, mas ele insistiu. Ele só parou de assediá-las quando um folião se aproximou e ofereceu ajuda as meninas. Quando foi questionar pra ele o motivo do assédio ele larga a frase no seu sotaque arrastado ‘ não tinha entendido que elas tinham dito não’. Desculpa esfarrapada. Fica a dica: Não é porque tem duas mulheres se beijando que elas precisam satisfazer seus desejos, senhor turista! Quer fetiche vai ver vídeo pornô!

Estranhamente essa cenas me fizeram, pela primeira vez, me sentir mais oprimido num espaço com mais gays do que heteros. A voz do preconceito ecoa de forma amplificada. Uma única voz pode afetar e ferir. O melhor de tudo isso é que, apesar disso tudo que eu relatei, os viados deram show no camarote.

A cada gesto preconceituoso ou frase atravessada os grupinhos puxavam o canto de ‘ai que delícia, que delícia ser viado’, trechos de vídeo que viralizou na internet. A cada vez que uma desavisada dizia que queria um homem de verdade e que ali só tinha viado rolavam beijos (às vezes triplos) e por aí vai. Nossa presença incomoda ? Pelo
visto sim. Mas ser viado é incomodar mesmo, lutar e resistir mesmo no meio da folia do Carnaval!

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A (in)visibilidade da bissexualidade
   Blog Diversidade   │     25 de janeiro de 2018   │     11:25  │  0

Quem não é hétero é o quê? É provável que você pense ‘gay’, ou talvez até ‘lésbica’. A bissexualidade, uma das formas de amar e de se relacionar que mais encaram os preconceitos e tabus do cotidiano, é uma identidade distinta. Uma sexualidade elevada a dois e uma orientação harmonicamente homossexual e heterossexual. Para muitos, uma oscilação; para outros, uma busca pela autoaceitação. Realidade: a letra B da sigla LGBT+ ainda luta por sua legitimação fora e dentro de um dos movimentos de minorias mais poderosos da nossa cultura. Portanto, há muito ainda para se lutar e, neste domingo, vai ocorrer a 20ª Parada do Orgulho LGBT de Belo Horizonte, que espera receber 60 mil pessoas na Praça da Estação.

Praticamente sozinha, a bissexualidade enfrenta resistência e pode ser considerada a mais “destabulizadora” das identidades. “Não somos gays e nem héteros. Não há confusão. Sinto atração por homens e por mulheres. Sou bi”, declara Matheus Dias, de 30 anos. Ele é tatuador e artista plástico de BH e reitera a ideia de que a orientação é incompreendida. “Se você não fala sobre isso, é comum apontarem o dedo e falarem que você é um gay que não saiu do armário. É muito importante levantar essa bandeira pelo simples (e péssimo) motivo que é a sociedade te falando o tempo inteiro que você está errado.”

Porém, Matheus se diz um homem de sorte, já que se identificou e se entendeu rapidamente com a sua sexualidade: aos 15 anos teve suas primeiras experiências amorosas com uma pessoa do mesmo sexo. “Já tinha namorado garotas. Demorei a entender se era gay, se estava me enganando ao gostar de garotas. Mas percebi que não. Mas preferi ficar com mulheres porque era mais fácil, pois não precisava falar sobre isso. Só aos 24 anos entendi a importância de falar sobre ser bissexual”, afirma.

Analice Souza passou por um processo de entendimento parecido com o de Matheus. Aos 32, a empresária, dona do Oliver Art Bar, conta que as pessoas tendem a achar que tudo se trata de uma “fase bissexual”. “Se for uma fase, tem 18 anos que estou nela”, ela ri. “Na adolescência, comecei a conviver com orientações diversas. Ficava com meninas por ‘brincadeira’ e curiosidade, até que me apaixonei por uma mulher e entendi que não era algo transitório. Então, assumi a identidade bi”, relembra.

O belo-horizontino Davi Collares, de 32, percebe o orgulho bissexual como uma forma de revidar. Ele funciona como um método de contra-ataque. “A sociedade está constantemente nos dizendo que ser LGBT é razão pra ter vergonha”, diz. Davi é médico patologista, doutorando na França e transgênero, figurando em duas letras representativas da sigla. “Antes da minha transição de gênero, só ficava com meninas. Só fui começar a me interessar por outros homens depois de bastante tempo. Hoje em dia, não me incomoda ser visto como gay quando estou com outro cara, mas como uma menina era insuportável.” Davi nasceu menina, mas jamais se identificou com o próprio corpo. Ele conta que o entendimento da transgeneridade o fez explorar as formas de amar. “Quando ‘transicionei’, fiquei livre e passei a ser percebido como homem, em sintonia com a minha identidade”, conclui.

O conceito bissexual ainda pode se estender para a pansexualidade. Trata-se de uma identidade sexual caracterizada pela atração por pessoas, independentemente do sexo ou gênero, incluindo intersexuais, transexuais e intergêneros. “Tem gente que não entende, acha que o bissexual é a pessoa que precisa estar com os dois gêneros ao mesmo tempo (de fato, pode ocorrer). Se você é pansexual, então, vão falar que você transa com árvore”, Davi reflete.

Thiago Costa, diretor do Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais, sustenta que esse estereótipo de que pessoas bissexuais são confusas ou promíscuas dificulta encontrar um parceiro que consiga entendê-las. “Não quer dizer que, por você estar aberta a viver experiências sexuais, esteja buscando por ela o todo o tempo. É como se bissexual fosse, por decisão, poliamorismo. Mas isso é apenas uma das opções. Ela pode viver um relacionamento monogâmico por escolha, assim como qualquer casal heterossexual”, pondera Thiago.

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Juntos, sozinhos: a epidemia da solidão gay
   Blog Diversidade   │     24 de janeiro de 2018   │     0:07  │  0

Por: Michael Hobbes

Parte I: Eu fiquei muito empolgado quando a metanfetamina acabou. “– Me disse meu amigo Jeremy.  “Quando você tem, você continua usando. Quando acabou, pensei: “bom, agora eu posso voltar para minha vida. Eu ficava acordado todo o fim de semana e ia para essas festas sexuais e depois me sentia uma merda até quarta-feira. Cerca de dois anos atrás, mudei para a cocaína porque eu poderia trabalhar no dia seguinte.” Jeremy me disse isso de uma cama de hospital, seis andares acima de Seattle. Ele não me contou as circunstâncias exatas da overdose, disse apenas que um estranho chamou uma ambulância e ele acordou aqui. Jeremy, definitivamente, não é o amigo com quem esperava conversar sobre esse tipo de assunto.

Até algumas semanas atrás, eu não fazia ideia de que ele usava qualquer coisa mais pesada do que algumas doses de Martini. Ele é elegante, inteligente, glúten-free, o tipo de cara que usa uma camisa de trabalho, independentemente do dia da semana. A primeira vez que nos conhecemos, há três anos, ele me perguntou se eu conhecia um bom lugar para fazer CrossFit. Hoje, quando pergunto a ele como tem sido estar no hospital até agora, a primeira coisa que ele diz é que não há Wi-Fi, e ele está muito atrasado nos e-mails de trabalho.

“As drogas eram uma combinação de tédio e solidão”, diz ele. “Eu costumava voltar para casa do trabalho exausto em uma noite de sexta-feira e pensar, “Então e agora, o que faço?” Eu ligava para pedir um pouco de metanfetamina e verificar a internet para ver se havia alguma festa acontecendo. Ou era isso ou assistia um filme sozinho “. Jeremy [1] não é meu único amigo gay que sofre este tipo de solidão. Há também o Malcolm, que quase não sai da casa, exceto para o trabalho, porque sua ansiedade é muito intensa. Há o Jared, cuja depressão e dismorfia corporal reduziram sua vida social a mim, a academia e às conexões da Internet. E havia também o Christian, o segundo cara que eu beijei, ele se matou aos 32 anos, duas semanas depois que seu namorado terminou com ele. Christian foi a uma loja de festas, alugou um tanque de hélio, começou a inalar, depois enviou uma mensagem para o ex-namorado e disse-lhe que viesse, para se certificar de que encontraria o seu corpo.

Durante anos, notei a divergência entre meus amigos heterossexuais e meus amigos homossexuais. Enquanto metade do meu círculo social, os heterossexuais, desapareceu em relacionamentos, crianças e subúrbios, o outro, dos amigos homossexuais, está sofrendo devido ao isolamento e ansiedade, drogas pesadas e sexo de risco.

Nada disso se encaixa na narrativa que me contaram ou que eu contei a mim mesmo. Como eu, Jeremy também não cresceu intimidado por seus colegas ou rejeitado por sua família. Ele não se lembra de ter sido chamado de bicha. Ele foi criado em um subúrbio da costa oeste por uma mãe lésbica. “Ela se assumiu gay para mim quando tinha 12 anos”, diz ele. “E mais tarde me disse duas frases que sabia que eu era gay. Naquele momento, eu mesmo mal sabia.”

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Que em 2018 vidas racionais não sejam seifadas como bichos de abate
   Blog Diversidade   │     30 de dezembro de 2017   │     17:41  │  0

Por: Nildo Correia

2017 para mim termina com uma sensação de insegurança, falta de humanismo e com uma boa dose de injustiça, o assassinato da travesti cearense Dandara dos Santos, de 42 anos, morta a pauladas, espancamento e tiros no dia 15 de fevereiro de 2017 vai bem mas além dos meus medos pessoas, da mesma forma em que despertou algo que a sociedade fingia não perceber (ou fazia questão de ignorar), a violência em que a população trans é submetida no Brasil.

O crime ocorreu na rua em plena luz do dia, foi filmado e apresentado a sociedade nas redes sociais como forma de prêmio, e prova que essa banalização da violência está nos tornando seres inracionais. 

Jornais de todo o mundo, como The Mirror, BBC, The New York Times, noticiaram o assassinato, mostraram o vídeo e colocaram em pauta a pouco falada transfobia. Ocasionou até o projeto de Lei Dandara dos Santos, que quer fazer do LGBTcídio crime.

Mesmo assim uma coisa é certa, nada apagará da memória de muitos, as imagens do abate violento que foi o assassino de Dandara. Abate, porque abate? Eu lhe respondo: abate sim, pois nem todo bicho morreu, morre e nem morrerá da forma em que Dandara, e muitas trans e outros seres racionais perderam suas vidas.

Que 2018 chegue com mais humanismo, traga em sua bagagem esperança de dias melhores.

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