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A excitação anal nos homens
   Blog Diversidade   │     25 de junho de 2016   │     0:21  │  0

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Por: Dr.  Flávio Gicovate – Médico-psiquiatra, psicoterapeuta, conferencista e escritor. Apresentador  do programa “No Divã do Gikovate”, na rádio CBN.  Formado pela USP em 1966, desde 1967 trabalha como psicoterapeuta, dedicando-se principalmente às técnicas breves de psicoterapia. Nos últimos trinta anos, escreveu 25 livros sobre problemas relacionados com a vida social, afetiva e sexual e seus reflexos na sociedade, alguns dos quais também publicados em língua espanhola.

O fato é que a enervação do orifício externo do ânus faz com que a estimulação táctil da área provoque importante excitação sexual. Trata-se, pois, de uma zona erógena importante. E mais: a penetração determina a estimulação prazerosa da próstata que pode, por si, provocar a ejaculação.

É preciso pensar sobre isso de uma forma livre, de modo que a excitação não seja confundida com  homossexualidade. Se for uma mulher a estimular a região anal e se ela introduzir algum objeto no homem, o prazer será sentido de forma idêntica e não haverá outro homem envolvido (nem mesmo em imaginação). A excitação “pertence” àquele homem e não depende de quem a provoca.

Estas práticas, chamadas de sodomia, acompanharam a vida de muitos homens ao longo dos séculos. Muitas vezes eram parte da masturbação e, só no século XIX, passaram a ser vistas de forma preconceituosa, rejeitadas pela maioria dos homens e por muitas mulheres. Ao longo do século XX, se consolidou a ideia de que desejos eróticos relacionados com a região anal são próprios e exclusivos de homens homossexuais, concepção vigente até nossos dias.

Assim, o território anal tornou-se interditado para os que gostam de mulheres; estes, ao que parece, têm que se proteger e tomar muito cuidado para não caírem em tentações inaceitáveis. As repressões sociais reforçam estas proibições e as famílias continuam a educar seus filhos no sentido de se comportarem como “machos” – ou “machões”. Em nossa cultura, a maior parte dos homens mal encosta na região anal e não permite que suas companheiras os estimule por esta via.

No sexo, as proibições determinam, para muitos, o desejo de transgressão. Os homens que não têm coragem de se abrir com suas parceiras acabarão por buscar a companhia dos travestis. Pelo fato de “parecerem” mulheres despertam o desejo visual da mesma forma que elas. Ao mesmo tempo, estão “equipados” para a relação anal. O desejo é pela forma feminina do corpo e o prazer anal é o que está sendo buscado. Saída engenhosa!

Pensando melhor, talvez a preocupação com a homossexualidade só devesse entrar em cena quando o desejo visual depender do corpo de um homem.

 

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Orgulho gay, porquê ?
   Blog Diversidade   │     23 de junho de 2016   │     0:00  │  0

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Por: Fernanda Câncio – licenciada em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Iniciou a sua actividade profissional em 1987 no jornal Expresso, passando depois para a revista Elle onde permaneceu até 1991. Até 1997 trabalhou na revista Grande Reportagem. De 1996 a 2002 exerceu a sua atividade no canal de televisão SIC efectuando reportagens e como editora do programa Esta Semana. De 1997 a 2003, integrou a redacção da Notícias Magazine, revista de domingo dos jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias.

Conheço e sou amigo de homossexuais, que não precisam de andar a mostrar o que são, são-no simplesmente e só quem convive com eles se apercebe… Vivem a sua homossexualidade em paz interior, e porque assim são nunca se sentiram discriminados, nem segregados em nenhum aspeto da vida, ao contrário de alguns e algumas que, se pudessem, andavam com um cartaz a anunciar o que são.” É um comentário a uma notícia do DN sobre o hotel do Minho que no site avisava “gays e lésbicas” para não fazerem reserva pois ser-lhes-ia vedada a entrada. É de ontem. Ou seja, cinco dias depois do massacre de Orlando, numa discoteca frequentada sobretudo por homossexuais e perpetrado por um terrorista que, de acordo com as notícias, se enojara com o beijo de dois homens.

Há muitos comentários assim por essa internet fora, por esses cafés e cabeças fora. Há-os aliás bem piores, escritos por portugueses, a festejar aquelas 49 mortes ou a acusar “os homossexuais” de “usarem Orlando para se vitimizarem”. Escolhi este por demonstrar a ideia, tão comum, de que os homossexuais “só têm problemas se se exibirem.” As pessoas que escrevem isto e se assumem, supõe-se, heterossexuais nunca se coibiram de dar a mão ou enlaçar um namorado/a; de o/a beijar na rua, de lhe fazer uma festa, de dançar “agarrados” numa discoteca; de brincar com ele ou com ela numa piscina, de dormir abraçados na praia; de fazer do seu casamento a festa mais ruidosa possível. Ou seja, nas palavras do comentador, nunca se coibiram de “andar com um cartaz a anunciar o que são”. Aliás, se forem homens, é possível que considerem seu direito assediar perfeitas desconhecidas no espaço público, tocá-las até. Foi devido à banalidade do exibicionismo hetero agressivo de homens sobre mulheres, e não decerto por causa do “exibicionismo homo”, que o contacto sexual físico (apalpões) e as propostas sexuais (assédio verbal) não desejados foram criminalizados. Com grande coro de protestos, lembre-se.

Considerar que mesmo se agressivo e criminoso o “exibicionismo hetero” é “normal” mas que demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo são ofensivas a ponto de admitir violência como reação aceitável: é mesmo isto que estas pessoas defendem. Aqui, Portugal, Europa, não na Arábia Saudita. Querem ter o poder de dizer aos homossexuais que são menos pessoas, com menos direitos; que, “sendo o que são”, devem coibir-se de o “anunciar”. Esconder, para não incomodar. Ou habilitarem-se. Ao ostracismo, ao gozo, ao insulto, à agressão. Aniquilações de vários tipos, todas a dizer o mesmo: desaparece, cala-te, esconde-te, tem vergonha, metes nojo; não existas, não sejas. Morre. É contra estas mortes, as simbólicas e a real (em Orlando e tantos outros lugares) que se fizeram os gay pride. Pride de orgulho, mas também de exibição, de grupo de gente que dá nas vistas. É mesmo para isso, para sermos vistos, que marchamos. Amanhã, no Príncipe Real, às cinco da tarde.

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Causas da homossexualidade
   Blog Diversidade   │     9 de janeiro de 2016   │     20:31  │  0

Texto Publicado em 18/04/2011 em sua pagina pessoal, mas de um riquíssimo conhecimento explicativo fora do sério.

Artigo

Por: Drauzio Varella – Médico oncologista, cientista e escritor brasileiro, formado pela Universidade de São Paulo, na qual foi aprovado em 2° lugar, conhecido por popularizar a medicina em seu país, através de programas de rádio e TV

Existe gente que acha que os homossexuais já nascem assim. Outros, ao contrário, dizem que a conjunção do ambiente social com a figura dominadora do genitor do sexo oposto é que são decisivos na expressão da homossexualidade masculina ou feminina.

Como separar o patrimônio genético herdado involuntariamente de nossos antepassados da influência do meio foi uma discussão que monopolizou o estudo do comportamento humano durante pelo menos dois terços do século XX.

Os defensores da origem genética da homossexualidade usam como argumento os trabalhos que encontraram concentração mais alta de homossexuais em determinadas famílias e os que mostraram maior prevalência de homossexualidade em irmãos gêmeos univitelinos criados por famílias diferentes sem nenhum contato pessoal.

Mais tarde, com os avanços dos métodos de neuro-imagem, alguns autores procuraram diferenças na morfologia do cérebro que explicassem o comportamento homossexual.

Os que defendem a influência do meio têm ojeriza aos argumentos genéticos. Para eles, o comportamento humano é de tal complexidade que fica ridículo limitá-lo à bioquímica da expressão de meia dúzia de genes. Como negar que a figura excessivamente protetora da mãe, aliada à do pai pusilânime, seja comum a muitos homens homossexuais? Ou que uma ligação forte com o pai tenha influência na definição da sexualidade da filha?

Sinceramente, acho essa discussão antiquada. Tão inútil insistirmos nela como discutir se a música que escutamos ao longe vem do piano ou do pianista.

A propriedade mais importante do sistema nervoso central é sua plasticidade. De nossos pais herdamos o formato da rede de neurônios que trouxemos ao mundo. No decorrer da vida, entretanto, os sucessivos impactos do ambiente provocaram tamanha alteração plástica na arquitetura dessa rede primitiva que ela se tornou absolutamente irreconhecível e original.

Cada indivíduo é um experimento único da natureza porque resulta da interação entre uma arquitetura de circuitos neuronais geneticamente herdada e a experiência de vida. Ainda que existam irmãos geneticamente iguais, jamais poderemos evitar as diferenças dos estímulos que moldarão a estrutura microscópica de seus sistemas nervosos. Da mesma forma, mesmo que o oposto fosse possível – garantirmos estímulos ambientais idênticos para dois recém-nascidos diferentes – nunca obteríamos duas pessoas iguais por causa das diferenças na constituição de sua circuitaria de neurônios. Por isso, é impossível existirem dois habitantes na Terra com a mesma forma de agir e de pensar.

Se taparmos o olho esquerdo de um recém-nascido por 30 dias, a visão daquele olho jamais se desenvolverá em sua plenitude. Estimulado pela luz, o olho direito enxergará normalmente, mas o esquerdo não. Ao nascer, os neurônios das duas retinas eram idênticos, porém os que permaneceram no escuro perderam a oportunidade de ser ativados no momento crucial. Tem sentido, nesse caso, perguntar o que é mais importante para a visão: os neurônios ou a incidência da luz na retina?

Em matéria de comportamento, o resultado do impacto da experiência pessoal sobre os eventos genéticos, embora seja mais complexo e imprevisível, é regido por interações semelhantes. No caso da sexualidade, para voltar ao tema, uma mulher com desejo sexual por outras pode muito bem se casar e até ser fiel a um homem, mas jamais deixará de se interessar por mulheres. Quantos homens casados vivem experiências homossexuais fora do casamento? Teoricamente, cada um de nós tem discernimento para escolher o comportamento pessoal mais adequado socialmente, mas não há quem consiga esconder de si próprio suas preferências sexuais.

Até onde a memória alcança, sempre existiram maiorias de mulheres e homens heterossexuais e uma minoria de homossexuais. O espectro da sexualidade humana é amplo e de alta complexidade, no entanto; vai dos heterossexuais empedernidos aos que não têm o mínimo interesse pelo sexo oposto. Entre os dois extremos, em gradações variadas entre a hetero e a homossexualidade, oscilam os menos ortodoxos.

Como o presente não nos faz crer que essa ordem natural vá se modificar, por que é tão difícil aceitarmos a riqueza da biodiversidade sexual de nossa espécie? Por que insistirmos no preconceito contra um fato biológico inerente à condição humana?

Em contraposição ao comportamento adotado em sociedade, a sexualidade humana não é questão de opção individual, como muitos gostariam que fosse, ela simplesmente se impõe a cada um de nós. Simplesmente, é!

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Homens que são mulheres
   Blog Diversidade   │     15 de novembro de 2015   │     21:46  │  0

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Por: Drauzio Varella – Médico oncologista, cientista e escritor brasileiro, formado pela Universidade de São Paulo, na qual foi aprovado em 2° lugar, conhecido por popularizar a medicina em seu país, através de programas de rádio e TV

A saúde pública não pode continuar dando as costas para essa minoria de homens.

De todas as discriminações sociais, a mais pérfida é a dirigida contra as travestis.
Se fosse possível juntar os preconceitos manifestados contra negros, índios, pobres, homossexuais, garotas de programa, mendigos, gordos, anões, judeus, muçulmanos, orientais e outras minorias que a imaginação mais tacanha fosse capaz de repudiar, a somatória não resvalaria os pés do desprezo virulento que a sociedade manifesta pelas travestis.

Quem são esses (as) jovens travestidos (as) de mulheres fatais, que expõem o corpo com ousadia nas esquinas da noite e na beira das estradas?

Apesar da diversidade que os distingue, todos têm em comum a origem: são filhas das camadas mais pobres da população.

A homossexualidade é tão velha quanto a humanidade, sempre existiu uma minoria de homens e mulheres homossexuais em qualquer classe social; caracteristicamente, no entanto, travestis só aparecem mais nas famílias humildes.

Na infância, foram meninos com jeito afeminado que, se tivessem nascido entre gente culta e com posses, poderiam ser profissionais liberais, artistas plásticos, empresários, costureiros, atores de sucesso. Mas, como tiveram o infortúnio de vir ao mundo no meio da pobreza e da ignorância, experimentaram toda a sorte de abusos: foram xingados nas ruas, ridicularizados na escola, violentados pelos mais velhos, ouviram cochichos e zombarias por onde passaram, apanharam de pais e irmãos envergonhados.

Em ambiente tão hostil poucos conseguem concluir os estudos elementares. Na adolescência, com a autoestima rebaixada, despreparadas intelectualmente, saem atrás de trabalho. Quem dá emprego para homossexual pobre?

Se para os mais ricos com diploma universitário não é fácil, imagine para elas. O máximo que conseguem é lugar de cozinheiro em botequim, varredor de salão de beleza na periferia ou atividade semelhante sem carteira assinada.

Vivendo nessa condição, o menino aprende com os parceiros de sina que bastará hormônio feminino, maquiagem para esconder a barba, uma saia mínima com bustiê, sapato alto e um bom ponto na avenida para ganhar numa noite mais do que o salário do mês.

Uma vez na rua, todo travesti é considerada marginal perigoso, sem nenhuma chance de provar o contrário. Pode ser presa a qualquer momento, agredida ou assassinada por algum psicopata, que nenhum transeunte moverá um dedo em sua defesa. “Alguma ele deve ter feito para merecer”, pensam todos.

Levada para a delegacia irá parar numa cadeia masculina. Como conseguem sobreviver de sainha e bustiê em celas com 20 ou 30 homens, numa situação em que o mais empedernido machão corre perigo, é para mim um dos mistérios da vida no cárcere, talvez o maior deles.
A condição de saúde das travestis é precária. Não existe um serviço de saúde com endocrinologistas para orientá-las a respeito dos hormônios femininos que tomam por conta própria.

Muitas injetam silicone na face, nas nádegas, nas coxas, mas sem dinheiro para adquirir o de uso médico, fazem-no com silicone industrial comprado em casa de materiais de construção, injetado por pessoas despreparadas, sem qualquer cuidado de higiene. Com o tempo, esse silicone impróprio escorre entre as fibras musculares dando origem a inflamações dolorosas, desfigurantes, difíceis de debelar.

Ainda as portadoras do vírus da Aids encontram algum apoio e assistência médica nos centros especializados, locais em que os funcionários estão mais preparados para aceitar a diversidade sexual. Nos hospitais gerais, entretanto, poucas conseguem passar da portaria, barradas pelo preconceito generalizado, praga que não poupa médicos, enfermeiras e pessoal administrativo.
Os hospitais públicos deveriam ser obrigados a criar pelo menos um posto de atendimento especializado nos problemas médicos mais comuns entre as travestis. Um local em que pudessem ser acolhidas com respeito, para receber orientações sobre uso e complicações de hormônios femininos e silicone industrial, prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis e práticas de sexo seguro.

A saúde pública não pode continuar dando as costas para essa minoria de homens, só porque eles decidiram adotar a identidade feminina, direito de qualquer um. Quem somos nós para condená-los?

Que autoritarismo preconceituoso é esse que lhes nega acesso à assistência médica, direito mínimo garantido pela Constituição até para o criminoso mais sanguinário?

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Por um mundo com mais Franciscos e menos Malafaias
   Blog Diversidade   │     25 de setembro de 2015   │     0:00  │  0

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Por: Maíra Streit  – É repórter e sempre dedicou a carreira a temas voltados aos Direitos Humanos, em especial à área de Infância e Adolescência. Foi jornalista da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), produtora do SBT e chefiou a Assessoria de Comunicação (ASCOM) da Secretaria de Estado da Criança do Distrito Federal. Recebeu o Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, na categoria Mídia Alternativa, Comunitária e Online. Foi também finalista do 34° Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos.

O ódio destilado em cada palavra do pastor midiático ajuda a reforçar um dos maiores desafios da atualidade: uma doença chamada “intolerância”, enquanto outro líder religioso, Francisco, impulsiona mudanças reais em prol da justiça social, fazendo da humildade um ato de resistência.

O pastor Silas Malafaia parece fazer uso contínuo do ditado “Falem bem, falem mal, mas falem de mim”. Com amplo destaque na imprensa durante essa semana, após troca de ofensas com o jornalista Ricardo Boechat, ele voltou a ser o centro das atenções em torno de mais uma polêmica. Aliás, sua biografia está repleta delas, o que garante visibilidade a quem já demonstra um fetiche bastante particular pelos holofotes.

O jeito histriônico, o dedo em riste, o olhar vidrado e a violência das palavras que emprega se tornaram marcas registradas do líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. E a maior celebridade gospel do país não economiza esforços em usar as câmeras para tentar destruir um de seus inimigos mais evidentes: a comunidade LGBT. “O ativismo gay é o fundamentalismo do lixo moral”, afirmou certa vez.

O vocabulário nada polido já foi usado contra a jornalista Eliane Brum – a quem se referiu como “vagabunda” – e o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, chamado pelo pastor de “bandido” e “safado”. O ódio destilado em cada palavra ajuda a reforçar um dos maiores desafios da sociedade brasileira na atualidade: uma doença chamada “intolerância”, que, teoricamente, a religião deveria ser a última a propagar.

As críticas raivosas de Malafaia, no entanto, não pouparam sequer o papa Francisco, acusado por ele de ter uma postura “covarde” e de não alertar para o “pecado” que existiria por trás da homossexualidade. De acordo com o pastor, faltava ao pontífice ler mais vezes a Bíblia.

A declaração que provocou toda essa ira fora dada em uma entrevista, quando o papa disse que os gays devem ser integrados à sociedade, e não marginalizados, afirmando que não teria motivos para julgá-los. Com uma frase aparentemente simples, ele já dava sinais de que viera para trazer um respiro de esperança em tempos sombrios.

A ação é uma prova de que é possível ter posicionamento firme diante das discussões políticas e sociais no mundo, sem recorrer à arrogante tentativa de subjugar as pessoas. Não foram poucos os assuntos espinhosos em que Francisco se mostrou crítico e atento, como na defesa da reforma agrária e do financiamento público de campanhas eleitorais.

O papa assumiu a bandeira contra a pena de morte, a destruição ambiental e a indústria bélica, mediou a aproximação entre Cuba e Estados Unidos e recebeu, pela primeira vez na história do Vaticano, um grupo de gays e lésbicas para uma audiência, assim como acolheu um transexual que estava sendo perseguido na paróquia que frequentava.

É óbvio que a Igreja Católica ainda tem muitas contas a acertar para que possa, um dia, ter cara e pensamento condizentes com o século XXI, no que se refere aos direitos reprodutivos e sexuais da mulher, só para citar um exemplo. Mas também é nítido que sua liderança máxima tem demonstrado uma energia considerável em promover o diálogo, a compreensão e uma postura de igual para igual com as diferenças.

Ao ter a humildade como um ato de resistência, o argentino Jorge Bergoglio ensina que é preciso escapar da cegueira profunda provocada pelo fanatismo. Mostra isso de face plácida, pés descalços e a rebeldia inerente aos grandes revolucionários, enquanto outros comprometem a dignidade em troca de poder e alguns tostões a mais.

Até mesmo os que não são religiosos concordam que, na luta pela equidade, a figura de Francisco representa uma lição a esses corações tão míopes, empenhados em inflar uma multidão armada com um olhar que nada vê. Sem ver, sobretudo, as próprias incongruências.

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