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Casais gays se divorciam menos que casais héteros, dizem estudos
   Blog Diversidade   │     9 de setembro de 2018   │     15:29  │  0

Artigo

Por: Verônica Vergara – jornalista, escritora, mestre em comunicação pela Universidad Autónoma de Barcelona e autora de diversos livros digitais de desenvolvimento pessoal focados especificamente para homens gays. Também sou coach, formada pelo Instituto Europeu de Coaching EFIC e certificada pela Associação Espanhola de Coaching.

Eles podem até levar a fama de promíscuos e infiéis. Podem ser adeptos a relações abertas, a menage a trois e a novas experiências. Mas, quando o assunto é relacionamento duradouro, os gays dão aula para muito casal hétero por aí.

Pelo menos é o que dizem os estudiosos de vários países onde o casamento gay já é realidade.

Os estudos

Uma pesquisa promovida pelo Instituto Williams, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Estados Unidos, descobriu que casais homossexuais se separam menos que casais héteros.

Jura, mana? Juro!

Realizado em 23 estados norte-americanos, o estudo revelou que a taxa de separação entre homossexuais é aproximadamente metade da taxa entre heterossexuais: em geral, aproximadamente 2% dos casais heterossexuais casados divorciam-se por ano, enquanto a cifra é de 1% entre os casais homossexuais.

E essas taxas se mantêm na Inglaterra e no País de Gales: estatísticas computadas pelo Escritório Nacional de Estatísticas Britânico demonstram que, desde 2005, os casais héteros têm propensão duas vezes maiores que os homossexuais a se separarem.

Na Holanda, o primeiro país a liberar a união de pessoas do mesmo sexo, os resultados não são diferentes. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Departamento Central de Estatísticas nos Países Baixos, nos 15 anos desde que o país aprovou o casamento igualitário, os casais homoafetivos exibem uma taxa de divórcio 3% inferior que a média dos casais heterossexuais.

Sim, gatíssima! As gays levam essa história de “felizes para sempre” mais a serio.

Por que casais gays são mais estáveis?

Há quem diga que gays têm mais intimidade, afeto e satisfação sexual. Verdade ou mentira, não podemos negar que o homem, seja ele homo ou heterossexual, sente mais facilidade em se comunicar e se entender com outros homens. Da mesma forma, para a mulher geralmente também é mais fácil a comunicação com outras mulheres.

É a velha história do “papo de homem” e o “clube da Luluzinha”. Se os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus, nada mais compreensível que dois marcianos resolvam melhor um conflito, não é mesmo?

Além do mais, ao contrário dos heterossexuais, gays não têm expectativas sociais pesando sobre as suas uniões. E, acreditem ou não, isso reflete decisivamente na rotina o casal.

Parceiros de mesmo sexo tendem a partilhar os afazeres domésticos de maneira justa e atribuir tarefas com base em preferencias pessoais – em vez de gênero, renda e posição de poder na cama. Não existe papeis tradicionais previamente definidos: os dois trabalham, limpam a casa, dividem as contas, os problemas e as dificuldades. Como deveria ser em qualquer relação.

Porém, mais importante do que qualquer possível explicação, não podemos esquecer que um casamento gay vem sempre seguido de muita luta.

O “eu aceito” homossexual tem mais valor, sim, porque ele representa uma série de conquistas. Não apenas do direito de casar, mas de assumir a própria identidade e gritar para o mundo que, diferente do que mamãe sonhou, aquele é parceiro escolhido para passar o resto da vida.

Abençoado ou não, fundamental é mesmo o amor.

A propósito, você está solteiro?

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Da operação limpeza à cura gay: Os 40 anos de luta do movimento LGBT no Brasil
   Blog Diversidade   │     1 de junho de 2018   │     11:18  │  0

Em 1978, o que hoje é conhecido como “movimento LGBT” se limitava apenas a “movimento homossexual”.


Em 1978, o que hoje é conhecido como “movimento LGBT” se limitava apenas a “movimento homossexual”.

No próximo domingo (3) acontece a vigésima segunda edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. O evento, que todos os anos reúne centenas de milhares de pessoas na avenida Paulista, é uma das maiores celebrações da diversidade do mundo, competindo em quantidade de público com a Marcha do Orgulho de Nova York, o berço do movimento LGBT.

Neste ano, a Parada é especialmente simbólica por duas razões: o tema escolhido foi “Eleições” e com o mote “Poder para LGBTI+. Nosso voto, nossa voz”, o evento promete trazer o debate sobre representatividade na política para o desfile; e, neste ano, completa 40 anos que a luta por direitos LGBT no Brasil ganhou corpo.

“Em 2018, se completam 40 anos do começo da organização do movimento LGBT no Brasil, que se chamava movimento homossexual no início, em 1978, e vai se diversificando e ganhando esse contorno do movimento LGBT, com as várias identidades”, afirma o advogado e militante de direitos humanos Renan Quinalha. Ainda que contabilizando avanços, discussões recentes foram levantadas com a decisão sobre “cura gay” de um juiz do Distrito Federal e a morte de Matheusa. “Isso mostra o quanto ainda é preciso fazer avançar o combate a LGBTfobia no Brasil”, completa o ativista.

A primeira edição da Parada de São Paulo aconteceu em 1997, mas organização do movimento começou a tomar forma no País no final da década de 1970, inicialmente lutando pelos direitos de gays e lésbicas. À época, diversos movimentos sociais e grevistas ganharam força na luta pela redemocratização do País, que vivia, desde 1964, uma ditadura militar. Dentre as forças políticas que se engajaram nessa mobilização pelos direitos civis e pela cidadania, estava o então chamado “movimento homossexual”, formado majoritariamente por homens gays.

Primeiros grupos e encontros da comunidade LGBT

REPRODUÇÃO
Reprodução de capa do jornal Lampião, editado nos anos 1980, em São Paulo.

O ano de 1978 é marcado pela fundação do jornal “O Lampião da Esquina”, editado por um grupo de intelectuais homossexuais no Rio de Janeiro. A publicação independente era engajada na oposição à ditadura e na discussão de temas relacionados à homossexualidade masculina, mas também trazia questões relativas ao feminismo, às mulheres, aos negros e outras minorias. O “Lampião” fazia oposição à ditadura e servia para denunciar abusos contra LGBTs, como a prisão arbitrária de lésbicas devido a sua orientação sexual em 1980, em São Paulo, no que foi apelidado de “Operação Sapatão”.

Entre o final de 1978 e o início de 1979 é criado o primeiro grupo de mobilização por direitos, o “Somos – Grupo de Afirmação Homossexual”. O grupo se manifestou em público pela primeira vez durante um debate promovido pela Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), em 1979, abrindo caminho para que outras organizações se estruturassem nos anos seguintes. Em 1980, ocorre o primeiro encontro de grupos homossexuais organizados.

REPRODUÇÃO/A HISTÓRIA DO MOVIMENTO LGBT BRASILEIRO
Membros do Somos – Grupo de Afirmação Homossexual depois de uma reunião geral nas Ciências Sociais da USP, 1980.

Nesse mesmo ano, o Somos se divide e surge o primeiro grupo exclusivamente lésbico, o Grupo de Ação Lésbica Feminista (GALF). Em 1981, é fundado o ChanacomChana, primeira publicação ativista lésbica do Brasil. O jornal era comercializado no Ferro’s Bar, mas, em 1983, os donos do estabelecimento expulsam as ativistas do local. No dia 19 de agosto do mesmo ano, o GALF organiza um ato político no local que resulta no fim da proibição da venda do jornal. O episódio é muitas vezes lembrado como o “Stonewall brasileiro”. Por causa dele, no dia 19 de agosto comemora-se o Dia do Orgulho Lésbico no Estado de São Paulo.

Mobilização contra a Aids e o preconceito

Antes de chegar a metade da década de 80, há uma drástica redução no número de grupos organizados, conta a pesquisadora Regina Facchini, no artigo “Movimento homossexual do Brasil: recompondo um histórico”. Se no início da década, o antropólogo Edward MacRae situou 22 grupos homossexuais atuantes no Brasil nesse período, concentrados, sobretudo no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, um documento produzido pelo Grupo Gay da Bahia falava em 7 grupos existentes em 1984 e 6 em 1985. O “Lampião da Esquina” deixou de ser publicado em 1981 e o Somos se dissolveu em 1983.

O cenário coincide com os estágios finais da ditadura, que geraram uma crise entre movimentos sociais no geral, que precisam pensar outras formas de mobilização não pautadas no governo militar como grande inimigo, e com a explosão da epidemia do vírus HIV que, no início, afetou com mais força homossexuais homens, bissexuais, travestis e transexuais.

Os militantes homossexuais foram os responsáveis pelas primeiras mobilizações contra a epidemia, tanto no âmbito da assistência solidária à comunidade, quanto na formulação de demandas para o poder público.

Com o estigma de serem vetores do vírus e da Aids, o movimento pela libertação sexual se esvaziou e muitos grupos passam a atuar em projetos de combate à doença. Nessa nova fase, tomam a frente o Grupo Gay da Bahia, fundado em 1980 em Salvador, e o Triângulo Rosa, criado em 1985 no Rio de Janeiro.

“Diante do crescimento dos casos da doença e da demora em ser produzida uma resposta governamental, a exemplo da maioria dos países ocidentais, os militantes homossexuais foram os responsáveis pelas primeiras mobilizações contra a epidemia, tanto no âmbito da assistência solidária à comunidade, quanto na formulação de demandas para o poder público”, explica Regina. A crise serviu para aumentar a visibilidade dessa população e grupos e eventos passaram a receber verbas estatais e de agências internacionais para atuar no combate à epidemia.

Outra mudança importante desse período é a adoção do termo “orientação sexual”, de modo a deslocar a polarização acerca da homossexualidade pensada como uma “opção” ou como uma “condição” inata”.

Nesse período, o GGB também encabeça a campanha de nacional para retirar a homossexualidade do código de doenças do sistema de saúde brasileiro. A conquista foi garantida em 1985, quando o Conselho Federal de Medicina retirou o termo do rol de patologias. A despatologização ocorreu no Brasil cinco anos de a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirar a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças.

“Outra mudança importante desse período é a adoção do termo “orientação sexual”, de modo a deslocar a polarização acerca da homossexualidade pensada como uma “opção” ou como uma “condição” inata”, escreve a pesquisadora. O Grupo Triângulo Rosa defendeu a inclusão do termo “orientação sexual” na Constituinte de 1987, nos artigos que vetam a discriminação e diferença salarial. A inclusão não foi adiante, mas posteriormente foi adotada em legislações municipais e Estaduais.

LGBTs ganhando as ruas (e reconhecimento)

NURPHOTO VIA GETTY IMAGES
Groups linked to the LGBT movement (Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender) protested on 29 September 2017 on Avenida Paulista, central region of Sao Paulo, Brazil, against a decision by a judge of the Federal District that released the reversion therapies, also known as "gay cure." Last Monday (18), DF Justice began to allow psychologists to treat the LGBT population as patients, releasing the realization of "reversion therapies". This type of treatment was prohibited since 1999 by a resolution of the Federal Council of Psychology. The organ said it will appeal.

As diversidades dentro do próprio movimento começam a ganhar mais visibilidade no início dos anos 1990, como foco em demandas específicas de cada um desses coletivos. Apesar de estarem na militância desde o início, as lésbicas são incluídas oficialmente na sigla geral do movimento em 1993, quando o evento anual passa a se chamar Encontro Brasileiro de Homossexuais e Lésbicas. No encontro seguinte, realizado em Curitiba, em 1995, as travestis – que começaram a se organizar no início da década em função do impacto da Aids e o consequente aumento de casos de violência contra essa população – reivindicaram e tiveram aprovada, sem polêmicas, a inserção do T para os encontros seguintes.

Em 1995, ocorre a fundação da primeira rede de organizações LGBT brasileiras, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis, ABGLT e, a partir disso, ocorre uma multiplicação das redes nacionais. No mesmo ano, o Rio de Janeiro recebe a 17º conferência da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersex, que terminou em uma pequena marcha na praia de Copacabana. No ano seguinte, um ato na praça Roosevelt, em São Paulo reúne cerca de 500 pessoas e partir de então, começa a se planejar a primeira parada LGBT do país, que acontece no ano seguinte, na avenida Paulista. Em 2008, a Conferência Nacional GLBT decide que T identifica, simultaneamente, travestis e transexuais homens e mulheres, e também posiciona a letra L em frente ao G, com o intuito de dar maior visibilidade às lésbicas.

Conquistas recentes

PAULO WHITAKER / REUTERS
Participants march with a rainbow-coloured flag during the 16th LGBT pride parade in Sao Paulo June 10, 2012. REUTERS/Paulo Whitaker (BRAZIL – Tags: SOCIETY)

Embora existam projetos de lei que autorizam a união e o casamento civil entre homossexuais tramitando no Congresso desde a década de 1990, esse direito foi concedido pelo Judiciário. A união estável foi reconhecida em 2011 pelo Supremo Tribunal Federal e o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo em 2013, pelo Conselho Nacional de Justiça.

O processo de redesignação sexual – conhecido popularmente como cirurgia de “mudança de sexo” – do fenótipo masculino para o feminino passou a ser oferecida SUS em 2008. Em 2010, o processo cirúrgico do fenótipo feminino para o masculino também começou a ser feito na rede pública de saúde. A espera, no entanto, pode levar mais de 20 anos, e apenas uma parcela da população trans com interesse é atendida.

O ano de 2018, além de marcar os 40 anos de luta por direitos LGBT também algumas conquistas importantes para pessoas trans. Neste ano, o nome social – aquele que pessoas transexuais e travestis, por exemplo, usam para se identificar – começa a ser aceito nas escolas e pode ser incluído no título de eleitor, mesmo sem a alteração do registro civil. Também neste ano foi autorizada, pelo Supremo Tribunal Federal, aalteração do nome no registro civil sem a necessidade de cirurgia de redesignação sexual.

 

Por : Leda Antunes – Jornalista e repórter freelancer de Mulheres e LGBT do HuffPost Brasil.

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Direitos homoafetivos e a socioafetividade
   Blog Diversidade   │     27 de abril de 2018   │     21:22  │  0

A sociedade passou por profunda transformação, nos últimos anos, no que diz respeito ao conceito sobre família, mas o Direito ainda não conseguiu acompanhar essas mudanças para garantir o direito igualitário a todas as pessoas. A família contemporânea passou a ter novas relações, desenvolvendo vínculos diferentes do biológico.
Pais e mães solteiros, casais homoafetivos, filho com dois pais: pai biológico e padrasto, a fusão de duas famílias, avós e netos morando sob o mesmo teto e irmãos unilaterais são apenas alguns exemplos dessa nova configuração familiar.
É diante desse novo contexto que surge a necessidade de um tratamento jurídico isonômico, em que todos são iguais perante a lei.
 

A grande mudança que vem ocorrendo no conceito de família proporcionou uma maior autonomia às pessoas que as integram. A nova família não é mais padronizada, não se pauta na procriação e na orientação religiosa.

Ela é plural, diversificada e questões individuais passaram a assumir um lugar maior em relação ao tradicional núcleo familiar.

Essa quebra de paradigmas trouxe à tona a discussão de diversas questões. Uma delas, a adoção por casais gays.

 

Como garantir aos casais homoafetivos o mesmo tratamento dado aos casais heterossexuais, à luz do que diz a Constituição Federal? Alguns casais de pais ou mães gays já conquistaram, por exemplo, o direito de gozar da licença maternidade, assegurada pela Lei nº 12.873/2013.

Isso demonstra que o Direito começa a dar seus primeiros passos, porém há muito ainda a ser feito. É preciso que as disposições contidas na Carta Magna do país sejam cumpridas efetivamente. Para se ter uma ideia, o número de adoção de crianças e adolescentes por casais homoafetivos ainda é menor se comparado aos casais heterossexuais. De acordo com a Vara Cível da Infância e Juventude, em Belo Horizonte, apenas duas crianças ou adolescentes foram adotados por casais homossexuais, em 2016, num universo de 100 disponíveis para a adoção.

Em 2015, também foram duas, de 83 crianças ou adolescentes em processo de adoção. Neste ano, de 50 crianças, apenas 1 foi adotada por casais gays. Não se pode justificar esses números apenas apontando o desinteresse pela adoção por parte desses casais. É preciso entender os entraves jurídicos que ainda são impostos.

 

Mesmo lenta, a evolução do Direito, é perceptível. Mas são necessários avanços. Outro ponto, por exemplo, que merece destaque refere-se à socioafetividade, que passou a ser consolidada no registro de nascimento. A socioafetividade trata sobre a declaração de dupla paternidade ou maternidade, uma biológica e outra afetiva. Esse conceito abarca filhos que possuem dois pais ou duas mães. O registro de nascimento da criança passou a constar os pais biológicos e os socioafetivos, sem qualificação da espécie de filiação. Até pouco tempo, para o Direito, filho legítimo era apenas aquele oriundo do casamento. Todas as demais situações de filiação eram menosprezadas pela tutela jurídica.

 

Diante dessa nova realidade da família brasileira, surge ainda a guarda compartilhada, a barriga solidária, a reprodução assistida, dentre outros vários institutos que, de início, assustam aqueles que ainda zelam pelo velho entendimento de que “um filho, apenas terá uma boa formação, se criado com a mãe”.

 

É importante analisar até que ponto a sociedade está pronta para amparar tais famílias, que ainda se encontram diante de tantas barreiras sociais e ideológicas. Ao vislumbrar as relações familiares sob o regimento da Constituição, o sistema jurídico brasileiro deu um grande passo, no que diz respeito ao princípio da Dignidade da Pessoa Humana, contudo, deve ser observado se o respaldo a esses novos conceitos vem sendo suficiente.

 

No entanto, embora passos largos estão sendo dados para a efetivação da família contemporânea, não são tênues as batalhas travadas contra os antiquados e obsoletos conceitos ainda ditados por uma, cada vez menor, parcela conservadora da sociedade.

 

Por : Ana Paula Gomes

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O que são pessoas cis e cissexismo ?
   Blog Diversidade   │     22 de março de 2017   │     0:22  │  0

Artigo

Por: Hailey Kaas – blogueira na área sobre Feminismos, Transfeminismos,Gordofobias, racismos, Bissexualidades/Pansexualidades e Sexualidades não-binárias, Acessibilidades e outros elementos de Justiça Social.

Vivemos em uma sociedade ciscêntrica, cisnormativa. Isso ocorre porque as pessoas cis detém o poder de decisão sobre as pessoas não-cis dentro de vários âmbitos: Médico, Político, Jurídico, Financeiro etc.

Mas quem são as pessoas cis? Utilizei a seguinte definição a priori:

“Uma pessoa cis é uma pessoa na qual o sexo designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de sexo + gênero designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de gênero, estão ‘alinhados’ ou ‘deste mesmo lado’ – o prefixo cis em latim significa “deste lado” (e não do outro), uma pessoa cis pode ser tanto cissexual e cisgênera mas nem sempre, porém em geral ambos.”

Uma pessoa cis é aquela que politicamente mantém um status de privilégio em detrimentos das pessoas trans*, dentro da cisnorma. Ou seja, ela é politicamente vista como “alinhada” dentro de seu corpo e de seu gênero.

Quero evitar dicotomizar aqui sexo e gênero, pois muito embora essas categorias sejam divisíveis para problematização, a ideia que a ciência construiu sobre o sexo é pré-discursiva, ou seja, é como se fosse compulsoriamente uma verdade.

Voltando na definição cis. Eu já havia retificado minha afirmação prévia em outra postagem, na qual elimino a discussão etimológica sobre o prefixo cis, porque não é cabível em uma discussão que se quer puramente política. Não queremos criar uma dicotomia entre pessoas cis e pessoas trans* e sim evidenciar o caráter ilusório da naturalidade da categoria cis.

O alinhamento cis envolve um sentimento interno de congruência entre seu corpo (morfologia) e seu gênero, dentro de uma lógica onde o conjunto de performances é percebido como coerente. Em suma, é a pessoa que foi designada “homem” ou “mulher”, se sente bem com isso e é percebida e tratada socialmente (medicamente, juridicamente, politicamente) como tal.

Mas afinal o que é cissexismo então?

Primeiramente é a desconsideração da existência das pessoas trans* na sociedade. O apagamento de pessoas trans* politicamente por meio da negação das necessidades específicas dessas pessoas. É a proibição de acesso aos banheiros públicos, a exigência de um laudo médico para as pessoas trans* existirem, ou seja, o gênero das pessoas trans* necessita legitimação médica para existir. É a negação de status jurídico impossibilitando a existência civil-social em documentos oficiais.

Porém esses exemplos são mais óbvios, e poderíamos chamá-los simplesmente de transfobia. O cissexismo é mais sutil. Ocorre quando usamos o termo biológico para designar pessoas cis, quando usamos certos discursos e certas expressões que excluem ou invalidam direta ou indiretamente as identidades das pessoas trans*.

Cissexismo será, então, qualquer discriminação baseada em uma ou mais das noções descritas abaixo:

1) Só existe um tipo de morfologia (corpo) e este deve estar alinhado com o gênero designado ao nascer;

2) Só existem dois gêneros (binários: masculino/feminino) e que uma pessoa deve estar alinhada dentro de um desses dois;

3) Uma pessoa trans* tem uma vivência menos ‘verdadeira’, e/ou nunca será ‘verdadeira’ se não fizer modificações em seu corpo para ficar mais próxima de um dos gênero binários;

4) Uma pessoa precisa estar dentro de um desses gêneros binários, porque senão ela não será feliz ou não será aceita;

5) As pessoas que não se encaixam no binário são doentes mentais, tem patologia e precisam se tratar de algum modo para se curar e que essa cura ou será o alinhamento ou o processo transsexualizador;
6) O corpo da pessoa trans* é “bizarro” e ela não pode viver no “entre” (na fronteira);

7) Achar que uma pessoa ‘chama atenção’, ‘dá pinta’, é ‘escandalosa’ e não age como o esperado do alinhamento cis, e por isso ela irá prejudicar a causa LGBT; (Atenção porque esse discurso está bastante difundido no meio LGBT!)

8) Uso de termos ofensivos, mas que muitas pessoas (atenção, LGBT!) não acham ofensivos, ou evocar arbitrariamente (sem a permissão da pessoa) o nome designado ao nascer, a experiência “pregressa” (falar em “antes” e “depois” é cissexista também); termos como ‘transvestir’, ’transformista’, ‘traveco’, ‘transsex’, ‘t-gata’ (sim, ‘t-gata’ é um termo fetichizador cissexista e sexista também, objetificador: atenção pessoas que se identificam como “t-lovers”); uso de termos como crossdress, drag, drag queen/king, quando você não sabe qual é a identidade da pessoa;

9) Designar arbitrariamente a identidade da pessoa. Conhecer alguém e prontamente decidir qual é a ID da pessoa baseada na imagem – visual e/ou performática – (da sua posição cis) que você tem dela. Alinhar pronomes e identidades também é cissexista;

10) Na simples discriminação pela pessoa não ser cis, por ter qualquer comportamento diferente do esperado pelo alinhamento cis. Nesse ponto o sexismo também tem papel importante. Cissexismo e sexismo são faces da mesma moeda;

Em suma, por que nomear as pessoas cis?

Como eu disse mais acima, ser cis é uma condição principalmente política (mas não só). A pessoa que é percebida como cis e mantém status cis em documentos oficiais não é passível de análise patologizante e nem precisa ter seu gênero legitimado. Ora homens são homens, mulheres são mulheres e trans* são trans* correto?

Não. Historicamente, a ciência criou as identidades trans* (e por isso já nasceram marginalizadas), mas não criou nenhum termo para as identidades “naturais”. É por isso que a adoção do termo cis denuncia esse statusnatural. Denotar cis é o mesmo processo político de nomear trans*: nomeia uma experiência e possibilita sua análise critica. Nas produções acadêmicas contemporâneas, tanto das ciências médicas quanto das sociais, a identidade trans* é colocada sempre sob análise, tornando-se compulsoriamente objeto de critica.

A naturalização das identidades cis produz privilégios. Esses privilégios são diretamente percebidos na medida em que, como dito, pessoas cis não precisam ter sua identidade legitimada pela ciência; tampouco estão classificadas como doentes mentais em documentos médicos; não sofrem privações jurídicas de existência em documentos oficiais; não sofrem violência transfóbica e cissexista; não precisam dar explicações sobre suas identidades; não são vistas como pervertidas e nem tem sua sexualidade confundida com seu gênero.

Ao nomearmos @s “normais” possibilitamos o mesmo, e colocamos a categoria cis sob análise, problematizando-a. Buscamos o efeito político de elevar o status de pessoas cis ao mesmo das pessoas trans*: se pessoas trans* são anormais e doentes mentais, pessoas cis também o são, suas identidades também não são “reais”; se pessoas cis são normais e suas identidades naturais, pessoas trans* também são normais e suas identidades tão reais quanto.

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O que acontece quando uma travesti vai a uma praia de nudismo ?
   Blog Diversidade   │     22 de fevereiro de 2017   │     20:40  │  0

Artigo

Por: Márcia Rocha – Advogada, militante e travesti. Livre como poucas, vive sua vida o mais intensamente possível, criando suas próprias regras da mesma forma como criou seu corpo escultural. Uma mulher especial com algo a mais, que vive para ser e fazer feliz.

Férias em Florianópolis, piscina de hotel cinco estrelas com direito a torpedinho entregue por garçom, enviado por hóspede advogado em que se lia: ‘apartamento no. tal, apareça’. Só me faltava essa, principalmente porque estava com minha digníssima companheira. Mas, vale a lisonja, ignora-se o machismo reinante e ri-se.

Tínhamos estado na praia da Galheta, em Florianópolis, onde apenas fiz ‘top less’. Na Grécia, há muitos anos, estive em uma praia de nudismo total, mas não era obrigatório, portanto apenas observei a natureza. No Brasil, há muitos anos que ouço falarem sobre a praia do Pinho, em Balneário Camboriú, área de nudismo onde não se pode entrar de biquíni, sunga, roupa, sendo obrigatório o nudismo total ‘top less’. Fomos.

Entramos na praia, alugamos um guarda-sol com duas cadeiras, pedimos uma coca-cola, e logo o rapaz avisou: ‘assim que sentarem, é obrigatório tirar tudo’. Fiquei logo só de viseira, afinal sou uma pessoa que cumpre rigorosamente as regras vigentes. Né?

Caminhada

Depois de um tempo, fomos andar pela praia. Primeiro para um lado, depois para o outro. Muitos casais olhavam tentando não reparar muito. Uma mulher me olhou ao passarmos, e sorriu cúmplice. Dava para ler em seus olhos: ‘Uia, uma travesti!’.

Voltamos às cadeiras, logo a coca-cola acabou, e nada do garçom aparecer. Levantei e fui até o bar, que fica em frente à praia, na rua, onde três garçons conversavam alheios às nossas necessidades. Ficaram pasmos ao me verem ali, completamente à vontade, mulher de peito e outros acessórios completos. Fiz o pedido e retornei ao nosso lugar, ignorando outros olhares que me avaliavam ao passar.

Alguns homens rodeavam, olhavam, e um até pareceu bastante chateado por nossa absoluta indiferença a seus avantajados dotes. Travesti lésbica é algo muito avançado até para o Pinho, talvez.

Tarde caiu

A tarde passava. Três casais passaram à nossa frente caminhando, e uma das mulheres sorriu para mim, ao que retribui. Foram até as pedras, ficaram ali por um tempo, depois retornaram. Ao passarem por nós uma segunda vez, a mulher não se conteve: ‘Parabéns!’. Sorri de volta e agradeci.

Então, voltando-se para os outros do grupo que sorriam: ‘E é ainda é bonita!’. Agradeci novamente. ‘Tudo bonito’, disse, e olhou para os detalhes. Depois sorrindo, seguiram em frente.

Já no final da tarde, o tempo nublando e um vento mais fresco já nos fazia resolver ir embora. Pensativa, durante a estrada de volta à Floripa, sorri comigo mesma, a Carol dormindo ao meu lado. Minha vida às vezes parece um quadro de Salvador Dali: um toque de aparente irrealidade com alguma profunda mensagem subliminar.

Somos nós os primeiros a dizer não a nós mesmos.  Digamos, sim, e assim será! Por que não?

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