Sônia Sissy Kelly, a transexual que sobreviveu a ditadura
   Blog Diversidade   │     15 de fevereiro de 2018   │     18:53  │  0

Nascida nos anos 60, Sônia Sissy Kelly enfrentou a violência do regime militar, viveu por anos na Europa, contraiu HIV e hoje luta pela visibilidade trans na Terceira Idade

Por: Isabela Alves

O Brasil é o país com o maior número de assassinatos contra membros da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), no mundo. Só em 2017, foram 445 homicídios motivados pelo ódio a LGBTs. O dado é de um levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), segundo o qual o número de assassinatos do tipo cresceu 30% em 2017, em relação ao ano anterior. O grupo acredita, ainda, que o número real pode ser maior, já que muitas pessoas LGBTs não têm seu nome social e identidade de gênero garantidos no atestado de óbito.

A violência contra essa população não é uma novidade no Brasil. Na época da Ditadura Militar, por exemplo, essas pessoas foram alvo de perseguições, censura e chegavam até a ser internadas em hospitais psiquiátricos. Tudo isso porque representavam uma “ameaça à ordem moral e à família tradicional brasileira”.

Os relatos das pessoas LGBTs que sobreviveram a essa época são impressionantes e mostram o quanto a intolerância às diferenças no Brasil é algo forte. Sônia Sissy Kelly é um exemplo disso. Ela é uma mulher transgênero que viveu na época da Ditadura Militar e sofreu diversas violações de direitos por ter assumido sua identidade. Atualmente ela continua lutando pelos direitos de transexuais e travestis, e pela sua sobrevivência.

Apoio familiar e transição de gênero

Nascida em 6 de abril de 1956, no estado do Espírito Santo, Sônia veio de uma família humilde de agricultores. Filha de pai analfabeto e mãe semianalfabeta, ela é a quinta filha de uma família de 13 irmãos. Não teve oportunidade de estudar além da quarta série, porque precisou trabalhar no campo para ajudar com o sustento da família.

Apesar de ter nascido em uma época extremamente conservadora, sua família sempre a aceitou e lhe deu apoio. “Os pais são os últimos a saber da orientação sexual do seu filho e, quando sabem, eles procuram negar por medo de que essa sexualidade não seja bem recebida pelas pessoas. No entanto, eu acredito que as pessoas LGBTs que têm apoio da família têm muito mais coragem de enfrentar a sociedade”, conta.

Imagens de Sônia aos 17, 22 e 27 anos de idade

Sônia iniciou a sua transição na adolescência, aos 17 anos. Por não ter acesso a muitas informações na época, ela não compreendia as mudanças que estavam ocorrendo em sua mente e seu corpo. Eu não tinha consciência do que era uma transexualidade, não sabia nada sobre questões de gênero e o mundo LGBT. Eu saí de casa como Idelci Lopes e fui buscar o meu eu, a minha Sônia Sissy Kelly que eu nem conhecia ainda”.

Ainda muito jovem, se mudou para a praia de Carapebus, uma serra boêmia no litoral de Vitória (ES), e lá encontrou pessoas com as quais se identificava. Algumas já estavam com suas transições completas e outras estavam na fase de transição, assim como ela.

“Até aquele momento eu nunca tinha tirado minha sobrancelha, não tinha nem furado a orelha… Sim, eu escolhi ser uma mulher transexual e sabia que só poderia estar completamente realizada sendo mulher. Essa transição não foi feita da noite para o dia, foi construída. Eu moldei o meu corpo, a minha mente e a minha alma”, explica.

Prostituição e Ditadura Militar

As mulheres transexuais e travestis enfrentam desafios diários nas suas vidas e um deles é a inclusão no mercado de trabalho. Muitas pessoas acreditam que a população de transexuais e travestis esteja ligada a profissões sexuais, mas, na realidade, muitas vão para essa vida porque esta é a única alternativa que lhes resta.

Por falta de políticas públicas que deem apoio a elas, essas pessoas acabam excluídas, marginalizadas. Sônia sentiu essas dificuldades e acabou seguindo o caminho da prostituição para sobreviver. “Nós temos pessoas sim que são profissionais do sexo, mas porque foram obrigadas a cair nessa profissão”.

Na época em que começou a sua transição, em 1974, o Brasil estava passando pela Ditadura Militar, regime autoritário que colocou em prática a censura, perseguição política, a supressão de direitos e a repressão, e Sônia sofreu na pele a crueldade e os abusos dos policiais.

Chegou a ser internada quatro vezes, foi transferida de cidade, e sofreu diversas torturas em um sanatório, com eletrochoques, por conta de suas vestes e penteados. Qualquer manifestação de sexualidade fora do padrão cis normativo era considerada doença mental. “A segurança pública nos violentava demais e tirava todos os nossos direitos, inclusive de ser quem éramos”, relembra Sônia.

Homossexualidade no Brasil e na Europa

Sônia no seu tratamento contra o HIV

Em 1984, resolveu se mudar para a Europa e ficou lá durante sete anos. Nesse tempo, ela morou em vários países, como Espanha, França, Itália, Suíça, Alemanha e Portugal. “Não vamos dizer que o Brasil é o único país que viola os direitos das pessoas LGBTs, mas os países da Europa estão bem mais evoluídos para lidar com as questões de gênero, sexualidade e até mesmo as pessoas em situação de rua”, explica.

Em 1991, quando vivia em Portugal, descobriu ter o vírus HIV e decidiu voltar para o Brasil. Assim, ela começou a trabalhar em prol de questões como prevenção, conscientização e redução de danos do HIV/AIDS“Na descoberta do HIV, eu tive que voltar para o Brasil para refletir minhas ações, e recomeçar minha vida junto da espiritualidade maior e junto do ativismo social”, conta.

Ativismo

Chegando no Brasil, Sônia se juntou à Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, em Belo Horizonte (MG), e também trabalhou no Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids). Já em 2008, fundou a Associação do Núcleo de Apoio e Valorização à Vida de Travestis, Transexuais e Transgêneros do DF e Entorno (Anav Trans) e também iniciou seu ativismo social dentro da população em situação de rua pela Pastoral da Rua, Fórum da População de Rua e no Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para População em Situação de Rua (CIAMP Rua).

“Minha maior bandeira de luta é pelo direito do nome social garantido, acolhimento institucional e pelo reconhecimento das identidades de gênero das mulheres travestis e transexuais. Já tivemos avanços, estamos no caminho certo e um dia vamos chegar lá”, comenta.

No Brasil, para conseguir mudar o nome e o sexo no RG, é preciso apresentar um laudo de um psicólogo e de um psiquiatra atestando que a pessoa “sofre de transexualismo”, termo do Catálogo Internacional de Doenças, e todo esse processo pode durar cerca de um ano.

“Nós, mulheres transexuais e travestis, morremos com requintes de crueldade, mas ainda somos reconhecidas por parte da polícia/imprensa como homens. A diferença entre a Ditadura Militar e os dias atuais é que hoje podemos ser protagonistas das nossas próprias histórias. Somos cada vez mais empoderadas para lutar pelos direitos como saúde, educação de qualidade e por mais oportunidades no mercado de trabalho”, afirma Sônia.

Terceira Idade

Agora que está na terceira idade, com 61 anos, Sônia continua lutando para ter seus direitos garantidos, já que muitas vezes nessa fase da vida as políticas públicas não dão suporte a essa população e muitas sofrem com a invisibilidade social. “Quando a gente entra na terceira idade, começa a perceber nossas mudanças perante o espelho e para as travestis e transexuais essas mudanças são ainda piores”.

Por conta das mudanças corporais, Sônia conta que muitas travestis e transexuais perdem o cabelo, os pelos no corpo e o silicone pode chegar a ficar destruído. “A gente como profissional do sexo já não consegue se manter e muitas das vezes a gente tem até a vida sexual ativa, mas as pessoas discriminam essa sexualidade na terceira idade”, explica.

Sônia na Ocupação Carolina Maria de Jesus, MG

Depois de ficar dois meses esperando por acolhimento em um espaço feminino em um asilo e não ter conseguido, Sônia foi morar na Ocupação Carolina Maria de Jesus, em Minas Gerais. A ativista é aposentada desde 1991, porém por conta dos gastos com seus remédios e alimentação, ela se mudou para a ocupação e está lutando por uma moradia fixa.

Pessoas interessadas em ajudar a Ocupação Carolina Maria de Jesus podem doar alimentos no endereço Av. Afonso Pena, número 2300, Belo Horizonte – MG.

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