Sexualidade e gravidez entre adolescentes: busca ou desordem ?
   Blog Diversidade   │     14 de setembro de 2015   │     0:22  │  3

Artigo

Por: Dr.a Elvira Simões Barretto – Professora da Universidade Federal de Alagoas. Graduada em Serviço Social e Doutora em jornalismo , com estudos avançados em jornalismo e ciência da comunicação e da informação como bolsista Alban, pela Universidade Autônoma de Barcelona. Possui mestrado em Serviço Social, pela Universidade Federal de Pernambuco. Atualmente vice-coordenadora e pesquisadora do Núcleo Temático Mulher e Cidadania/UFAL,com experiência de pesquisa nas áreas de gênero, violência, Juventude e comunicação.

Gênero e sexualidade

A história mostra que, desde a Revolução Francesa com o desfraldar de suas bandeiras “Igualdade, Fraternidade e Liberdade”, o gozo de direitos iguais tem sido almejado por parte de grupos sociais até então discriminados, como, por exemplo, o das mulheres. Em função disso a emergência do movimento feminista, junto com outros movimentos sociais nos marcos do capitalismo, se torna compreensível à medida que teoricamente esse regime prevê igualdade para todos perante a lei. Se na prática isso não ocorre, é outra questão, mas o que está implícito nessa colocação é a “garantia” da possibilidade jurídica de se lutar por esses direitos e pela igualdade, aqui compreendida não como direito de ser idêntico/a mas como direito de ter o mesmo valor.

No decorrer da história a mulher vem ocupando lugar desigual em relação ao homem, seja, por exemplo, permanecendo confinada aos gineceus na Antiga Grécia, contando para tal com o aval dos filósofos que justificavam a natureza inferior da mulher 2; seja na Idade Média3 quando os padres da Igreja ratificavam esses princípios, seja no Renascimento que embora considerado época de florescimento científico e filosófico, no que se refere às mulheres, corresponde a uma época de trevas, palco de um dos mais atrozes genocídios que já ocorreu na história: o da caça às bruxas, iniciando com a Bula do Papa Inocêncio VII (1484). Essa grande perseguição vai se intensificar gravemente com a crescente apropriação do saber médico pelos homens. Desde épocas mais remotas cabia às mulheres a arte de curar – raizeiras, alquimistas, curandeiras e parteiras; mas a emergência da “ciência” ou do saber científico torna inadmissível aceitar uma mulher médica.

O fenômeno de caça às bruxas parece estar relacionado com o abalo do poder religioso pela secularização, resultante da ascensão da ciência. Se essa teve como objetivo eliminar a ignorância e a superstição através de métodos racionais, teve também, por outro lado, como contradição, a perseguição às mulheres sábias; essa ciência em formação se fundamentou, segundo Brian Easlea (1981), numa filosofia que excluía as mulheres e ajudava a consolidar a sociedade patriarcal e os interesses masculinos em sua aplicação e resultados. Essa tendência vai se revelar nas idéias de Bacon e Descartes para quem a mulher e a natureza, enquanto entes similares, deveriam ser domadas. 

Na Escolástica foi vetada à mulher qualquer possibilidade de produção de conhecimento, o que por sua vez se constituiu numa das bases de sustentação capitalista para privilegiar o espaço doméstico e o da reprodução como o lugar da mulher. O cartesianismo renascentista significou, por outro lado, o coroamento do processo de identificação da mulher com a natureza, ambas reduzidas à matéria inerte, não criativa, a ser plenamente dominada pelo intelecto humano, ou seja, masculino. Mesmo com a Revolução Francesa, cujo deslanchar contou com a ampla participação das mulheres, estas não terão acesso à cidadania1 e ao mundo público.

Desde então e até os dias de hoje, segundo Ávila e Gouveia (1996), estrutura-se no capitalismo uma dicotomia aparente entre as esferas pública e privada relacionadas respectivamente à produção e à reprodução, organizada de forma hierárquica, onde a segunda está subordinada a primeira.

Considerando como pano de fundo a relação entre ordem social e sexualidade, podemos inferir nesse aspecto que a sociedade moderna se estrutura a partir de dois eixos que encerram contradições em si mesmos: O patriarcado e o liberalismo. O patriarcado forjado nos últimos séculos, situa socialmente as mulheres da classe dominante como seres da esfera privada e sexualmente reservadas à reprodução. O liberalismo materializado na Revolução Francesa que propõe a universalidade de direitos aos cidadãos, mas na prática são apenas direitos para os que podem transitar na esfera pública.

A sexualidade e a reprodução, como uma de suas funções vêm sendo historicamente pretexto para regras e normas de comportamento, tendo em vista a manutenção da ordem social, cultural e econômica do moderno projeto burguês.

Partindo dessa compreensão é possível entender que a discussão crítica2, no âmbito da sexualidade, contribui efetivamente para um processo de revisões de valores culturais que historicamente vêm limitando a capacidade do desenvolvimento humano, na esfera das relações sócio-afetivas de homens e mulheres de todas as gerações. Essa discussão crítica, teve como principal ponto de partida a repressão sexual e, de forma particular a repressão sexual das mulheres.

Nesse sentido, Foucault (1997.p.6), dentro da perspectiva da sexualidade enquanto construção sócio-histórica, afirma que, no mundo moderno, concomitante à circunscrição da mulher no espaço doméstico, a sexualidade é confinada à família conjugal e ao âmbito privado onde se lhe atribui como principal função a reprodução. Seguindo essa lógica, confirma Foucault (1997, p.6): “em torno do sexo, se cala, (…) faz reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se o princípio do segredo”, o sexo passa portanto a ter uma natureza pecaminosa.

Segundo este autor, há um questionamento a cerca da teoria da repressão sexual, não no sentido de refutá-la e sim, no sentido de recolocá-la numa “economia geral” dos discursos sobre sexo a partir do século XVII.

Focault (1997) demonstra que nunca se deixou de falar em sexo e faz-nos compreender que quando se fala em sexo é necessário observar quem fala, o lugar de onde se fala e os pontos de vista de quem fala. Entendendo essa necessidade, o autor apresenta ainda um questionamento que se constitui em parâmetro para a pesquisa como um todo. Ou seja: “De que maneira o poder penetra e controla o prazer cotidiano?”, continuando segundo o mesmo:

Partindo desses questionamentos, consideramos importante um diálogo com a linha da pesquisa teórica de Menicucci (1986) acerca da sexualidade. A pesquisadora dá um tratamento sócio – histórico da temática, apreendendo a sexualidade no contexto das desigualdades sociais; e consegue ir além de uma teoria científica da sexualidade e oferece subsídios para uma melhor apreensão do campo de tensão que envolve o tema.

Conforme as argumentações já apresentadas, entendemos ter tornado possível reconhecer a histórica reprodução de relações desiguais e injustas entre mulheres e homens, no exercício de suas sexualidades. Nesse momento, pretendemos tornar perceptível, em diálogo com Menicucci (1986), a questão da opressão e culpabilização do corpo feminino .

Nesse sentido, encontramos na autora uma teorização acerca da existência de “4 (quatro) posses essenciais” do corpo feminino através de dispositivos de saber e poder instaurados na sociedade moderna. A primeira posse subjaz através da “apropriação da alma” pela igreja; a segunda, pela apropriação do corpo através do discurso da desigualdade social fundada na natureza; a terceira posse corresponde a apropriação do excedente a partir da lógica de mercado; finalmente, a quarta posse ocorre com a apropriação do corpo a partir do discurso hegemônico do Estado e seus dispositivos de controle da sexualidade e discriminação das mulheres no exercício de sua cidadania.

A “apropriação da alma” se faz presente através do discurso moralista e normatizador da igreja que, durante séculos, vem desempenhando um papel fundamental no controle do corpo e do prazer da mulher. Podemos citar como exemplos as doutrinas estóicas e eremita dos primeiros séculos da era cristã e o fato de existir como dogmas e/ou temas no seio da igreja católica, o celibato, a virgindade de Maria, a contracepção e o aborto.

A ritualização da sexualidade feminina é um mito do imaginário coletivo onde se estruturou uma história construída acerca da relação entre a mulher e a natureza numa lógica onde a valorização e identidades femininas permanecem centradas na reprodução. Uma outra lógica, da racionalidade instrumental, submete à sua lógica o amor e o prazer que passam a ser regidos pelo princípio da produtividade econômica, banalizando o corpo e mecanizando o prazer.

Diretamente relacionada com essa mulher “mãe pela própria natureza” está a terceira “posse essencial” que atribui como natural a condução dos trabalhos domésticos, configurando as duplas e às vezes triplas jornadas de trabalho, particularmente as mulheres dos setores populares – que representam a maioria da população feminina no Brasil. Além do que, naturaliza-se a diferenciação salarial de algumas mulheres em relação a seus colegas do sexo masculino por justificativas relacionadas a essa concepção de mulher. E finalmente, a quarta “posse essencial” está relacionada ao poder do Estado e as suas leis.

É nesse mesmo contexto de domesticação, submissão e controle do “corpo” feminino que se forja na teoria e na prática política do movimento social feminista a desconstrução das raízes culturais e que vêm reproduzindo a representação da “opressão como destino” o que vai, a partir daí, influenciar o curso da história e da vida.

Temos que levar em consideração o contexto de emergência desse movimento acima referido, tendo em vista o ascendente processo de complexificação sócio- cultural do mundo contemporâneo. Nesse sentido, dialogando com Nízia Villaça e Fred Góes (1998) vale ressaltar que na era industrial o corpo era manipulado como instrumento da produção, lugar da disciplina e controle. Na sociedade pós-industrial, caracterizada pela difusão do saber e da informação, por uma tecnologia que ultrapassa a ciência e a máquina para tornar-se social e organizacional repensa-se esse controle. Nesse sentido os/as autores/as questionam: O corpo dominado é apenas o do trabalhador? E nós acrescentamos: O corpo dominado é apenas da mulher? Assim argumentam os/as autores/as:

O novo aspectro global de fluxos, redes e imagens é destinado a controlar sobretudo o cidadão consumidor través da produção incessante de serviços e desejos. O que percebe é que uma leitura do corpo como construção narcísico-hedonista, disciplinado pelas regras da estetização geral da sociedade pós-industrial, pode incidir numa versão redutora do papel do corpo.

Ressaltam os/as autores/as que não se trata apenas de um corpo disciplinado, obedecendo cegamente às regras do look1, no sacrifício ascético em prol da manutenção da juventude e da bela forma. Com base em Maffesoli, os/as autores/as afirmam que o corpo, não é apenas veículo de aparência enganosa, mas lugar de fascínio, sedução, criação de alianças, via pactos estéticos que celebram o prazer, a criatividade e o humor.

Mesmo considerando a argumentação acima compreendemos que a contribuição de Foucault (1984) deve ser considerada na contemporaneidade por reconhecer que a complexidade do contexto sócio-cultural traz consigo as várias faces de uma mesma moeda: passado, presente e sementes de futuro entrelaçados.

Nesse sentido, reconhecemos que Foucault (1984), há muito, desmonta a representação fixa sobre sexualidade no exercício das práticas sexuais, e desvela as formas institucionais de controle destas práticas, como a igreja, a família e o Estado. O pesquisador já se preocupava com a própria organização social da sexualidade considerando suas especificidades, de acordo com cada época e cada cultura.

Pesquisadores/as como Isaac Balbus (1987), Judith Butler (1987) e Susan Bordon (1997), por exemplo, filiam-se à perspectiva acima, abrindo um diálogo com Foucault. Bordon (1997), por exemplo, conduz-nos à reflexão, com base em Foucault e Bourdieu, de que o corpo não é apenas um texto da cultura mas também um lugar prático e direto de controle social. Por outro lado, nossos princípios políticos conscientes, nosso engajamentos sociais, nossos esforços de mudança podem ser, segundo a autora, solapados e traídos pela vida dos nossos corpos, não o corpo instintivo e desejante concebido por Platão, Santo Agostinho e Freud, mas o corpo dócil e regulado, colocado a serviço das normas da vida cultural e habituado às mesmas.

Ressalta Bordon (1997), com base em Foucault, que por meio da organização e da regulamentação do tempo, do espaço e dos movimentos de nossas vidas cotidianas, nossos corpos são treinados, moldados e marcados pelo cunho das formas históricas predominantes de individualidade, desejo, masculinidade e feminilidade.

Dessa maneira Foucault contribui, como afirma Corrêa (1996), para o entendimento de que o controle e a conformação da sexualidade não se reduzem às mulheres e ao campo da reprodução; entretanto é necessário focar a variabilidade de práticas sexuais que fazem parte da sexualidade humana. Se, antes trata de uma oposição simples entre liberação e repressão hoje a questão é mais complexa. Nesse sentido assumir posições simplistas propicia a atualização e a legitimação das representações e práticas tradicionais, conservadoras. Essas práticas teimam a se reproduzir na cultura brasileira.

Concordamos com essa perspectiva, reconhecendo a existência de raízes culturais reprodutoras de repressões sexuais, até os dias atuais; consideramos que, no campo da sexualidade e da reprodução, homens e mulheres – cada um assumindo suas orientações sexuais -, são discriminados/as, a exemplo, da inexistência de regulamentação não discriminatória em relação à guarda paterna dos filhos (LYRA, 1997). Um outro elemento consiste na falta de uma definitiva regulamentação da interrupção da gravidez, e da questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Com base em Barbiere (1993) é de se reconhecer as diferenças anatômico-fisiológicas dos corpos humanos, pois homens e mulheres têm a capacidade, desde a infância, de produzir com o corpo. Homens e mulheres temos a possibilidade de produzir prazer no corpo do outro/a, mas somente as mulheres têm um corpo que produz outro corpo.

Mulheres e homens somos imprescindíveis para a fecundação, mas somente o corpo das mulheres tem garantido, até o momento, a sobrevivência do embrião e, portanto a espécie humana(…)o corpo feminino na idade reprodutiva é valioso e há aí um poder particular, específico do corpo das mulheres(…)são as sociedades que lhe conferem poder.

Nesse sentido, Rubin (1993) alerta que a fusão cultural entre gênero e sexualidade fez emergir a noção de que uma teoria da sexualidade poderia se derivar da teoria de gênero, na medida em que as relações de gênero afetam o sistema sexual, visto que esse tem manifestações específicas de gênero. Embora gênero e sexo estejam intimamente relacionados, eles não são a mesma coisa, mas constituem a base de duas arenas distintas das práticas sociais.

Em sintonia com esse entendimento, Corrêa (1997), concordando com Rubin (1993) e Scott (1990), concebe os sistemas de sexo/gênero como sistemas de poder dos quais resultam, conflitos e transformações culturais, sociais, políticas e até mesmo econômicas. O uso analítico da categoria gênero se aplica a diferentes contextos históricos e culturais, numa perspectiva não fixa, de natureza dinâmica e relacional, ou seja:

Os sistemas de gênero correspondem à totalidade dos arranjos através dos quais as sociedades transformam a sexualidade biológica em atividades humanas, a partir das quais as necessidades humanas são tanto satisfeitas, quanto transformadas. O poder contido nos sistemas de gênero opera com mais força nos estágios reprodutivos da vida humana, quando os meios para controlar a sexualidade , a reprodução e o acesso às atividades produtivas estão situados e funcionam de maneira mais aguda. Esta definição favorece a desconstrução das diferenças de gênero que foram e continuam a ser interpretadas, racionalizadas como resultado de uma ordem natural biológica imutável, no sentido de pensá-las como circunstâncias construídas social e historicamente e, portanto sujeitas à transformação pela ação social e política. Esta compreensão do gênero como operador social e simbólico também possibilita o exame das relações de poder inter e intra – gêneros (CORRÊA, 1997, p.152).

Segundo Barbiere (1993), a sexualidade é o conjunto de maneiras diversas de se relacionar enquanto seres sexuados, com outros seres também sexuados. Esses intercâmbios, como tudo o que é humano, são ações e práticas carregadas de sentido.

Sexualidade também tem sentido como operador de mediações sociais em que a garantia da reprodução biológica é apenas uma das funções, numa interação complexa com os sistemas de sexo/gênero.

Basicamente os fundamentos do Gênero como categoria de análise teórica podem ser encontrados na teorização de Scott (1990) que parte da elaboração de que “gênero” é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder. As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre a mudanças nas representações do poder. Para a autora (1990):

Como elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas, o gênero implica em quatro elementos: 1- os simbólicos culturalmente disponíveis que evocam representações simbólicas, Eva e Maria como símbolo da mulher, por exemplo; 2- os conceitos normativos que põem em evidência as interpretações do sentido dos símbolos. Para a autora2, o desafio é explodir a noção de fixidez e descobrir a natureza do debate ou da repressão que produzem a aparência de uma permanência eterna na representação binária de gênero; 3-o gênero é construído no âmbito das instituições e da política. Em outras palavras, a construção de gênero se faz através do parentesco, mas não exclusivamente, ele é construído igualmente na economia e na organização política, que operam atualmente de maneira amplamente independente do parentesco; 4- a identidade subjetiva intervém na construção dos sujeitos sócio-afetivos. Nenhum dentre esses elementos pode operar independentemente (p.13).

Fazendo referência ao conceito de “gênero”, de Scott, Barbiere (1993) afirma que os sistemas de gênero/sexo são conjuntos de práticas, símbolos, representações, normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatômico-fisiológica e que dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e, em geral, ao relacionamento entre as pessoas.

Culturalmente nos deparamos com duas tendências que giram em torno da compreensão da sexualidade. A primeira é a reprodução como função principal da sexualidade das mulheres e o prazer e virilidade como referente principal da sexualidade masculina; e a segunda tendência é a concepção tradicional do sexo enquanto força vital ou apetite para ambos os sexos. Com base em Corrêa (1996) , compreendemos que essa “força vital” permite o reconhecimento de um sujeito sexual independentemente da procriação no âmbito familiar.

Se por um lado, algumas pesquisas vêm comprovando que o exercício prático da sexualidade não indica a centralidade da reprodução, por outro lado, alguns discursos oficiais, em particular na área de saúde pública, colocam a reprodução como eixo principal da sexualidade.

Vale ressaltar que partimos do pressuposto de que as formas de relações de gêneros na prática da sexualidade podem influenciar diretamente o exercício da saúde sexual e a regulação da fecundidade.

Na pesquisa, a ser tratada no III capítulo, adotamos a perspectiva de sistemas de análise diferenciados para o tratamento das relações de gênero e da sexualidade.

Buscamos na teoria de Gênero a desconstrução da perspectiva de sexualidade centralizada na reprodução sem, entretanto, relacionar mecanicamente sexualidade e gênero.

Essa filiação teórica sintoniza-se com Corrêa (1996) que convoca para uma atualização conceitual oferecendo importante contribuição na sua reflexão que trata da autonomia dos sistemas sexualidade /gênero revisitando alguns autores como Parker e Rubin.

Percorrendo esse caminho, adotamos a perspectiva teórica elaborada por Parker (1984) onde constrói uma matriz tripartite para tratar da “sexualidade” e das “relações de gênero”. Essa matriz consta de uma subdivisão: sistema de gênero, sistema da sexualidade e sistema erótico.

O sistema da sexualidade corresponde ao que ele chama de normativo, como por exemplo, a religião e o discurso médico, pois “nomina dispositivos que reconfiguram as representações da sexualidade”. O sistema erótico ordena com uma lógica própria às práticas sexuais.

Problematizar a experiência e a representação são aspectos pontuados por Corrêa (1996), indicando a direção metodológica para análise dos dados acerca da representação da gravidez e da sexualidade entre adolescentes e profissionais de saúde.

Enfim, concordando com Ávila e Gouveia (1996), a sexualidade é uma vivência que tem como sede primeira o corpo que se relaciona diretamente com os toques e as sensações. Porém este corpo, desde que anuncia a sua vinda ao mundo dos humanos, já é um corpo sexuado e nomeado. Quando um pai ou uma mãe (ou também um avô, avó, tia, tio, ou qualquer outra pessoa) sabe o sexo daquele corpo já lhe confere um nome, em função do gênero: nem que seja menino/a, o/a bebê; criando e desejando para ele uma série de coisas, de laços e bonés até a futura profissão. Antes da própria gravidez ou mesmo da possibilidade dela, já desejamos sexos para os bebês, até quando ainda estamos cronologicamente mais perto deles, ou seja, nas nossas brincadeiras de crianças. É uma trama muito longa e complexa que cria sexos e sexualidades.

Percebemos, em suma, que o sexual permeia, de um modo ou de outro, todas as relações sócio-afetivas; se os sentimentos não são forças naturais mas categorias culturais, nossa maneira de sentir e amar é inevitavelmente ligada à nossa maneira, historicamente determinada, de pensar o sujeito, de construir a noção de pessoas. Portanto, a nossa maneira de pensar tem direta relação com as várias instituições que vêm moldando nossos sentimentos entre elas, a família.

Tags:, , , , , , , , , ,

>Link  

COMENTÁRIOS
3

A área de comentários visa promover um debate sobre o assunto tratado na matéria. Comentários com tons ofensivos, preconceituosos e que que firam a ética e a moral não serão liberados.

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do blogueiro.

  1. Eduardo

    A resposta ao título é desordem!. Ele não se relaciona com o texto em nenhum momento. Esse capítulo extraido de algum trabalho ou livro é muito confuso e sem sentido. Veja por exemplo quando a autora diz que a luta é pela valorização da mulher e não pela igualdade de direitos. Mas, na prática, aliás, no parágrafo seguinte, diz que a mulher é “confinada” nos gineceus. Ora, a mulher não valoriza sua posição e acha que somente através da ocupação dos postos ocupados pelos homens é que ela será valorizada. Ou seja, esse discurso de valorização é falso pois quando atribuímos determinado valor a qualquer coisa que seja o que ira contar é esse valor e não onde esse objeto estará. Pense, por exemplo, numa nota de 50,00. Onde quer que ela esteja ela vale 50,00. Para que ela seja valorizada basta vc reconhecer que ela é uma nota de 50,00 e não fazer dela uma nota de outro valor, qualquer que seja.
    São muitas inconsistências nesse artigo, mas vamos a outra. Diz que o patriarcalismo reduziu a dimensão sexual à reprodução e isso relativamente à mulher. Tento entender e me esforço aqui para imaginar como essa geração de feministas amebas poderiam se reproduzir sozinhas sem a participação dos homens no processo e não consigo. Se o Estado determina taxas, regras, normas ou seja lá o que for, isso vale para os dois, homem e mulher, pois sem a participação de ambos não há reprodução, ok? É uma falácia argumentar que esse discurso oprime somente a mulher. Se há opressão ela existe tanto para a mulher quanto para o homem.
    Terceiro, a autora tenta defender a ideia estapafúrdia de que a sexualidade é uma construção social e cultural e que a genética, a fisiologia,a biologia e a medicina nada tem a dizer sobre esse assunto, com se a escolha de um brinquedo ou de uma cor tivessem maior força que a própria natureza humana. Difícil heim?!?

    Reply
    1. Elvira Simões Barretto

      Olá Eduardo,
      O título inicial da postagem se refere ao nosso livro publicado pela EDUFAL: Gravidez na adolescência: busca ou desordem?No arcabouço teórico-conceitual de um dos capítulos encontra-se esse texto postado pelo Jornalista Nildo Corrêia: “Gênero e Sexualidade”. O livro encontra-se à venda na Livraria da EDUFAL, na Universidade Federal de Alagoas, Campus A.C. Simões.
      Vejamos, agora, como posso contribuir para a sua reflexão no que se refere a:
      1-“[…] quando a autora diz que a luta é pela valorização da mulher e não pela igualdade de direitos. Mas, na prática, aliás, no parágrafo seguinte, diz que a mulher é “confinada” nos gineceus.” Resposta: A construção textual, a partir do diálogo com vários/as teóricos, logramos um resgate teórico e histórico para demonstrar de forma fundamentada que, sim, as mulheres precisam lutar por sua valorização por terem sido, historicamente, excluídas, subjugadas, torturadas, massacradas, entre outros danos sofridos. Quando trazemos, entretanto, a teoria de gênero temos condições de apreender as raízes dessa vergonhosa história e identificar a lógica do poder patriarcal (idade média) e da ideologia androcêntrica(Antiguidade) presentes, até hoje, ordem moderna contemporânea influenciando a sociabilidade do sujeito moderno e gerando prejuízo a ambos – homens e mulheres. Portanto, reconhecemos a importância da “luta por direitos”. Como, por exemplo, o direito do homem a ser educado para ser menos violento.

      2- Sobre sexualidade e reprodução recomendo alguns textos acadêmicos:
      LOYOLA, M.A. (Org.). Bioética, reprodução e gênero na sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: ABEP, 2005.
      CORRÊA, Marilena Cordeiro D.V. Novas tecnologias reprodutivas: limites da biologia ou biologia sem limites? Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001.
      CORRÊA, Marilena Cordeiro D.V.; LOYOLA, Maria Andréa. Novas tecnologias reprodutivas: novas estratégias de reproduçao? Physis: revista de saúde coletiva, v. 9, n. 1, 1999.

      3-“[…] a autora tenta defender a ideia estapafúrdia de que a sexualidade é uma construção social e cultural e que a genética, a fisiologia,a biologia e a medicina nada tem a dizer sobre esse assunto, com se a escolha de um brinquedo ou de uma cor tivessem maior força que a própria natureza humana”. Sexo está no âmbito da natureza do ser animal humano e não humano. Ok? A sexualidade está no âmbito social e cultural. Veja bem, algumas pesquisas, comprovam que nos primórdios da nossa história, muito antes da antiguidade, da era greco-romana, havia grupos humanos em organizações sociais não complexas e muito simples, mas providas de valores, regras e normas de comportamento, etc.Nesses grupos, as mulheres – seres com a capacidade de no seu corpo gerar um outro ser- eram vistas como deusas na terra; enviadas para abençoar a vida humana. O sexo não tinha significado social e cultural, pois ninguém sabia, naquele momento, que a prática do sexo entre um homem e uma mulher gerava um ser no corpo da mulher (reprodução). Só depois quando passaram a entender que o homem participava, através do coito, da reprodução humana é que a sexualidade se instala enquanto fenômeno social . Portanto, a sexualidade vai sendo compreendida com características diferentes em cada momento histórico, porque a realidade social,cultural, econômica e política vai mudando . Não temos como fugir dessa realidade.
      Agradeço a você, Eduardo, a oportunidade desse diálogo! Abraços
      Elvira
      [email protected]

      Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *