‘Ter pênis não é o que faz de você um menino’: livro de educação sexual para crianças aborda vivências transgênero
   Blog Diversidade   │     17 de agosto de 2015   │     16:58  │  0

Lançado no Canadá, ‘Sex is a funny word’ é voltado para crianças entre 8 e 10 anos e contempla jovens que não correspondem a normas de gênero: ‘elas têm a cabeça bastante aberta, e muitas pessoas têm medo disso’, diz autor

Capa da edição canadense do livro 'Sex is a funny word' ['Sexo é uma palavra engraçada']

Capa da edição canadense do livro ‘Sex is a funny word’ [‘Sexo é uma palavra engraçada’]

“A primeira coisa que você deve saber sobre sexo é que ‘sexo’ é uma palavra”, escreve Cory Silverberg, educador sexual de Toronto e autor do livro Sex is a funny word” [“Sexo é uma palavra engraçada”, em tradução livre] junto com a ilustradora Fiona Smyth. O livro didático infantil, que chegou às livrarias do Canadá em julho, tem como protagonistas quatro crianças de diferentes gêneros, etnias e habilidades. O texto lida com questões usuais – alterações do corpo na puberdade, crescimento de pelos, mamilos extras – antes de chegar aos temas que poucos livros infantis ousaram abordar. “Ter um pênis não é o que faz de você um menino”, diz o livro. “A verdade é muito mais interessante do que isso!”

Este talvez seja o primeiro livro infantil de educação sexual a lidar com as questões de crianças transgênero ou com identidades de gênero diversas, tendo como público-alvo crianças de 8 a 10 anos de idade. O último livro infantil de Silverberg, “What makes a baby” [“O que faz um bebê”, em tradução livre], tratou da doação de esperma e de famílias não convencionais, mas “Sex is a funny word” dá um grande passo ao abordar políticas de gênero e identidade. “Quando nascemos, um médico ou parteira diz que somos um garoto ou uma garota. Mas isto se baseia em nosso aspecto exterior, em nossa aparência e naquilo que eles acreditam que somos”, escreve Silverberg. “E quanto ao que nós próprios pensamos ser?”

Silverberg coloca grandes questões em um momento crucial. Na era de Caitlyn Jenner e Laverne Cox, estrela da série “Orange is the New Black”, o reconhecimento das pessoas transgênero está lentamente aflorando entre as gerações mais jovens. O filme “Stealth”, que esteve na programação infantil do Festival de Cinema Internacional de Toronto (TIFF), conta a história de uma garota trans de 12 anos de idade. Em meados de julho, o canal de TV canadense TLC estreou “I am Jazz”, programa com a ativista transgênero de 14 anos Jazz Jennings.

O gênero como um espectro e não uma característica binária é um conceito bastante compreensível para as crianças de hoje, argumenta Silverberg. De acordo com uma pesquisa com 1.000 pessoas conduzida pelo site Fusion, 57% das mulheres e 44% dos homens entre 18 e 34 anos acreditam que o gênero é um gradiente. Desde muito mais jovens, no entanto, as crianças já compreendem o conceito. “As crianças não conhecem a terminologia, mas, enquanto brincam no parque, sabem se são garotas com características masculinas ou garotos com características femininas”, diz Silverberg. “Elas têm a cabeça bastante aberta, e muitas pessoas têm medo disso”.

Estas pessoas são normalmente os próprios pais, diz Christine Baldacchino, professora de uma creche em Toronto. “Havia um garoto de quatro anos em minha sala que adorava usar um vestido dourado”, diz. “Um dia, sua mãe o viu usando o vestido e disse à diretora que não queria que ele o usasse mais”.  A diretora achou que seria mais fácil remover o vestido do armário da escola. “Ao longo de vários dias, ele perguntou sobre seu vestido preferido: para onde o haviam levado, se ele tinha sido mandado para a lavanderia ou estava sendo consertado, se o trariam de volta.”

Por fim, o menino entendeu o que havia acontecido. “Ele disse: ‘Se vocês trouxerem o vestido de volta, eu prometo que não o uso mais'”, conta Baldacchino, que na infância foi uma “menina-joãozinho” e, portanto, está familiarizada com as regras de gênero impostas às crianças. “Aquilo partiu meu coração e, por isso, escrevi um livro sobre o assunto”. “Morris Micklewhite and the tangerine dress” [“Morris Micklewhite e o vestido tangerina”, em tradução livre] foi lançado no Canadá em abril de 2014, recebendo críticas muito positivas – a maior parte delas, pelo menos. “Uma bibliotecária me contou que um garoto pegou o livro emprestado e sua mãe o obrigou a devolver”, diz Baldacchino. “Em seguida, ela tentou fazer com que o livro fosse removido do acervo da biblioteca”.

Baldacchino escreveu pensando nas crianças trans, mas seu livro também se dirige a pessoas “cisgênero”, as que se identificam com o gênero que lhes foi designado na infância, isto é, a maioria das pessoas. Muitos adultos não gostam desta ambiguidade. “Muitos pais querem uma resposta sobre se a personagem Morris é gay ou trans. Eu não sei responder!”, diz ela. “Ele tem apenas quatro anos”.

Há muitas crianças semelhantes a Morris, mas apenas algumas delas chegarão a realizar uma transição completa de gênero, diz Miriam Kaufman, da Clínica para a Juventude Transgênero, no Hospital Pediátrico de Toronto. No meio tempo, ela diz que bloqueadores hormonais “dão às pessoas jovens algum tempo para pensar sobre sua identidade e viver em seu corpo da forma como ele está naquele momento”.

Livros como os de Baldacchino e Silverberg, que tiveram Kaufman como consultora, representam uma mudança nas ideias e nas conversas sobre o assunto entre pais e filhos. “Esta é uma excelente oportunidade para que os pais conversem com seus filhos sem ter de empregar a palavra ‘eu'”, diz Kaufman.

Silverberg também convidou crianças a lerem o livro antes da publicação. Elas recebem “Sex is a funny word” muito bem, diz. “O livro é massa porque você se envolve muito com ele”, disse Bronwyn, de 8 anos de idade, uma das crianças consultadas por Silverberg. “Uma das coisas de que mais gostei foi o fato de que cada personagem é diferente”.

Fonte: revista canadense Macleans

Tradução: Henrique Mendes

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