Por outra masculinidade, homens contra o machismo
   Blog Diversidade   │     17 de dezembro de 2014   │     12:00  │  0

Artigo

Por: Cynara Moreira Menezes – Baiana, nascida em Ipiaú, região cacaueira, em 1967. Formou-se em jornalismo pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) em 1987. Desde então, percorreu as redações de vários veículos de imprensa, a começar pelo extinto Jornal da Bahia: Folha de S.Paulo, Estadão, revistas IstoÉ/Senhor, Veja, Vip e, atualmente, Carta Capital. É autora dos livros O Que É Ser Arquiteto, com João (Lelé) Filgueiras, e O Que É Ser Geógrafo, com Azizi Ab’Saber, ambos pela editora Record. Ideologicamente, é uma esquerdista empedernida, mas está mais para Amelie Poulain do que para Rosa de Luxemburgo.

Tenho dois filhos homens com uma diferença de 17 anos entre eles. E sempre me esforcei por ser uma mãe que não reforça estereótipos sobre masculinidade nem reprime a sexualidade ou a personalidade de nenhum dos dois pelo menos, claro, não de forma consciente. Um dia, quando o maior tinha uns 8 anos de idade, resolvi lhe contar que quando eu era pequena os mais velhos viviam dizendo que homens não choram. Ele me olhou como se eu tivesse falado a coisa mais bizarra do mundo e disse:

– Sério? Nossa, que estranho.

Recentemente, resolvi repetir a “experiência” com o mais novo, de 6 anos. “Você sabia que quando eu era pequena diziam que homens não choram?”, perguntei. E ele respondeu:

– Mas eu não sou homem, sou uma criança!

Sim, houve um tempo em que homens adultos e mesmo as crianças do sexo masculino eram proibidos de chorar. Demonstrar dor ou tristeza através de lágrimas era considerado sinal de fraqueza, de “pouca macheza”. Coisa de “mulherzinha”. Na época do meu pai, também era malvisto que um homem manifestasse afeto fisicamente por outro, ainda que fosse seu filho. Pais não podiam abraçar e beijar os filhos homens (e, em alguns casos, nem as filhas mulheres). Que estranho, diriam meus guris hoje em dia.

Toda essa repressão foi a responsável por gerações inteiras de homens travados em termos afetivos, incapazes de fazer demonstrações de carinho públicas e privadas com seu amor (não excluo os gays) ou com seus filhos. Em efeito cascata, outros homens criados por estes homens também se tornariam assim, para sofrimento deles mesmos e de quem estava a seu redor. O fenômeno que vitimou estes homens, assim como vitima as mulheres, se chama machismo.

Sempre me impressionou como os homens, ao contrário de nós, mulheres, nunca procuraram refletir sobre si próprios. Talvez porque passar a pensar sobre a natureza masculina fosse considerado (e ainda é) “frescura”, coisa de homem “sensível”, o tipo mais desprezado entre todos, até mesmo pelas mulheres. Homem “de verdade” não encana com essas coisas. Machismo.

Como é que o homem aceita bovinamente os estereótipos sobre o que é ser homem? Nós, mulheres, estamos cada vez mais nos libertando deles, e os homens, não. Nem sequer questionam que um homem para “ser homem” precise “parecer homem”. Que não possa ter gestos ditos “femininos”. Que não possa admitir nunca vulnerabilidades e fraquezas porque isso é “ser frouxo”. Que tenha que se vestir de determinada maneira. Até as cores são um tabu para os homens: homem que é homem não usa cor-de-rosa. Que cor uma mulher não pode usar? Que roupa uma mulher não pode usar? Tem aspectos que somos mais livres do que eles… A diferença é que nós nos rebelamos. Eles não. Ainda não.

O mundo está mudando e vejo aparecer alguns homens se esforçando na tentativa de transformar seu destino. Li outro dia no El Pais que os espanhóis começam a se juntar em grupos para discutir como podem ser melhores pais, dividindo tudo com as mães em relação aos cuidados dos filhos, inclusive as tarefas domésticas. Estes homens não são nossos inimigos. São nossos parceiros.

No Brasil, há cada vez mais pais jovens que não aceitam o papel que lhes cabia na educação dos filhos, de serem os disciplinadores, os manda-chuvas, os responsáveis pela parte mais dura da criação. “Vou contar para o seu pai”, diziam as mamães de minha infância. Tínhamos medo de nossos pais. A maioria dos homens que eu conheço não quer ser esta presença amedrontadora e distante na vida de seus filhos. Quer ser amado por eles. Me contaram do surgimento de cursos específicos para homens interessados em melhorar sua afetividade, para conviver melhor e de forma mais proveitosa com aqueles que amam. Que bom.

Tem outras questões que ficam rondando minha cabeça. É verdade que as estruturas de poder da sociedade são feitas para beneficiar os homens. É possível que uma maioria deles ache isso ótimo e deseje de fato deter este poder assim como é possível que também a maioria das mulheres deseje poder, ou não? Mas e os homens que não desejam ter todo este poder? Que não se enquadram neste modelo que se espera que sigam apenas por serem homens? Acaso não são vitimados por estas estruturas tanto quanto as mulheres?

Me revolta ver algumas feministas defenderem que “todo homem é um estuprador em potencial” porque a sociedade os fez assim principalmente porque é mentira. Se fosse verdade, para começo de conversa, os gays teriam que entrar nessa conta. Ou não são homens? Gays são estupradores em potencial? Hum… Difícil. Não é à toa que tem feminista radical, por absurdo que pareça, cometendo transfobia. Se a sociedade machista fez com que muitos homens sejam estupradores em potencial? Claro, taí o deputado Bolsonaro que não me deixa mentir. Mas a sociedade machista também moldou mulheres canalhas. Taí a apresentadora Rachel Sheherazade que não me deixa mentir.

Acho uma injustiça ver os homens que tentam se juntar à luta feminista serem desprezados por algumas delas e chamados zombeteiramente de “feministos”. Ou sendo reduzidos a “uzomi”. Isso reforça a ideia de que feminismo é mulher contra homem, quando deveria ser mulher e homem contra o machismo. Não se pode “roubar o protagonismo” das mulheres nesta luta, dizem algumas feministas, como se o machismo só atingisse a nós e não a eles também. Como se fosse real este desejo por parte deles de “roubar o protagonismo” da mulher. E se eles estiverem querendo apenas ser solidários, caminhar ao lado ou por que não? se unir a uma luta que também consideram sua?

Rejeitados pelas feministas, os homens que se revoltam com o machismo deveriam criar um movimento próprio. Deviam perder o medo de parecer “menos homens” e discutirem mais suas questões. Deviam refletir se este modelo machista de sociedade também não os agride, não os oprime e não os prejudica enquanto seres humanos, assim como acontece com as mulheres.

Infelizmente, por conta da omissão destes homens, todos os “ismos” relacionados ao masculino foram usurpados pelo machismo para serem utilizados contra o feminismo: hombrismo, masculinismo. A hipótese de um masculinismo que pudesse significar uma luta análoga ao feminismo, virou uma revoltinha de machistas birrentos e com pouco tutano contra as conquistas femininas. Como se as mulheres estivessem querendo roubar o lugar dos homens e eles precisassem se proteger. Patético.

Resgatado, o masculinismo poderia se tornar um “feminismo do homem” contra o machismo. Acredito que todos nós, homens e mulheres que não nos beneficiamos do machismo da sociedade, somos vítimas dele. Todos, homens e mulheres que sofremos com o machismo, temos o direito de lutar contra ele. Homens: à luta, companheiros.

UPDATE: Nem machistas nem fascistas. Mandaram para mim este post sobre o Coletivo de Homens Anti-Patriarcais da Argentina (veja aqui). Como pode ser bacana esta luta, hein? Muito bom.

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