Homossexualidade e Candomblé
   Blog Diversidade   │     15 de dezembro de 2014   │     11:01  │  0

Artigo

Por: Jocélio Teles dos Santos – Professor do Departamento de Antropologia/UFBA

Estudo antropológico acerca da abertura das religiões afro-brasileiras aos homossexuais

Candomblé_festaAs religiões afro-brasileiras, comparadas com outras grandes religiões – Judaísmo, Islamismo, Cristianismo – são, por excelência, as religiões mais tolerantes às orientações sexuais, em que os homossexuais tanto são respeitados como são lideranças religiosas. Mas por que o candomblé teria a característica de ser receptivo, sem preconceitos estabelecidos?

Para tentar responder a questão, situarei, inicialmente, o que os estudos nas ciências sociais pensaram sobre a homossexualidade no candomblé. O candomblé, como hoje conhecemos, a sua estrutura religiosa, os espaços para rituais privados ou públicos aos orixás, inkices e voduns, existe desde o início do século XIX. Esta afirmação repousa nos documentos históricos da famigerada repressão policial, assim como se revela nos depoimentos de pais e mães-de-santo dos terreiros fundados na segunda metade do século XIX.

E para nosso deleite, já havia, naquela época, registro da presença de homossexuais nos terreiros. Em 29 de outubro de 1870, o jornal O Alabama referia-se a um “affeminado” que dizia ir para a escola “com os bolsos cheios de pomada, pó de arroz, escovinha de dentes e espelho para se mirar ante a casa de curandeiros”. É provável que fosse uma casa ou um terreiro já que muitos pais e mães-de-santo eram qualificados como curandeiros e/ou feiticeiros. Segundo o jornal, o “affeminado”, por contar com a “proteção de bambu (uma bengala) do curandeiro R. S.”, não ia às sabatinas, não era chamado à lição e espera ser approvado”. O interessante é que essa notícia revela a inserção de homossexuais em espaços afro-religiosos na cidade soteropolitana.

Ainda no século XIX, escritores e cientistas já chamavam a atenção para a bissexualidade e a androginia na mitologia das religiões afro-brasileiras. O escritor Xavier Marques, no romance O feiticeiro, destaca a bissexualidade da divindade Obatalá e Nina Rodrigues registra a concepção andrógina dos nagôs presente no Brasil, por exemplo na indumentária dos rituais, pois usava-se saias para os orixás masculinos e femininos.

O curioso é que mesmo sendo Nina Rodrigues o cientista que apontava a bissexualidade de algumas divindades, não se encontra, na sua obra, nenhuma referência a homossexuais ou bissexuais de carne e osso nos candomblés baianos. O tabu nas ciências sociais começou a ser quebrado quando entrou em cena a antropóloga norte-americana Ruth Landes, que, entre 1938 e 1939, realizou pesquisas em Salvador. Ruth Landes tinha uma verdadeira obsessão. Era uma feminista e pensava que, pelo fato da maioria dos terreiros ser liderados por mulheres, Salvador seria “uma cidade de mulheres”, uma cidade com um poder feminino que não era visto em outros lugares do mundo. Além disso, os candomblés que ela visitou, e mais ressaltava, eram os candomblés de origem ketu, os considerados mais ortodoxos, mais “puros”. Os candomblés angola ou caboclos eram por ela desprezados e considerados deturpados por terem na sua maioria lideranças masculinas. E seriam esses, justamente, os considerados com predominância de lideranças homossexuais.

A reação às afirmações de Ruth Landes foram fortes. Um outro médico e discípulo de Nina Rodrigues, Artur Ramos, considerava pura fantasia as conclusões de Landes. Só que ele estava defendendo o candomblé, ao dizer que não havia homossexualismo ritual ou religioso entre os negros no Brasil. E que era uma coincidência alguns indivíduos homossexuais terem encargos religiosos. É algo individual, dizia, e não da religião. Como a presença de homossexuais não era, e nunca foi, exclusiva dos candomblés baianos, uma outra religião afro-brasileira, o xangô pernambucano, foi estudada por René Ribeiro nos anos 50. Para quem via patologia e algo “desviante” no comportamento dos homossexuais, as conclusões foram que as personalidades eram egocêntricas, narcisistas, introvertidas, com dificuldades no relacionamento com a imagem feminina.

Dos anos 70 aos 90, alguns estudos se apresentaram para entender a presença/relevância de homossexuais nos terreiros. Peter Fry chamou a atenção para a associação entre pessoas consideradas marginais na sociedade, a periferia e essas religiões mágicas. A homossexualidade feminina no xangô pernambucano foi argumentada, pela antropóloga Rita Segato, como um resultado do processo da escravidão que rompeu com a instituição da família. Patrícia Birman, ao estudar terreiros de umbanda e candomblés cariocas, investigou a vinculação da possessão masculina com a homossexualidade para argumentar sobre a criação de gêneros masculino e feminino nesses espaços religiosos.

Fazendo um balanço da produção teórica nas ciências sociais, gostaria de apresentar os seguintes argumentos sobre o homossexualismo no candomblé: 1) Ao contrário do que Ruth Landes afirmava, a presença de homossexuais se verifica tanto em terreiros ketu quanto nos de tradição angola, caboclo, gêge; 2) Contrariamente ao que Ruht Landes e Lorand Matory, pesquisador norte-americano, pensavam, o homossexualismo não se manifesta exclusivamente em lideranças masculinas; 3) O candomblé não inventou o homossexualismo no Brasil. O homossexualismo, como demonstra Luiz Mott, é anterior à existência dos candomblés; 4) O que o candomblé fez, foi criar modos e formas de o desejo homossexual manifestar-se, realizar-se e existir, pois a mitologia cria essas possibilidades; 5) Se os terreiros absorvem homossexuais, significa dizer, também, que os homossexuais visualizam os candomblés como espaços de poder, que lhes possibilita ser reconhecidos socialmente, terem possibilidades de vir a ser líder de uma comunidade, terem proximidades e relações com personalidades do poder público, ou de recrutarem como ogãs ou ekédis antropólogos, médicos, advogados, artistas, psicólogos. Enfim, como todo espaço do mundo social, os terreiros, mesmo nas suas especificidades religiosas, são organizações feitas por humanos e aspiradas, das mais variadas formas, por desejos, gélidos ou cálidos, mas humanos.

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