Livro analisa relações entres gays e ditadura
   Blog Diversidade   │     30 de outubro de 2014   │     14:17  │  0

Organizada com o propósito de incluir a questão da homossexualidade na historiografia da ditadura, coletânea mostra a perseguição aos gays e as diferentes formas de resistência

Chega às livrarias nos próximos dias o livro Ditadura e Homossexualidades – Repressão, Resistência e a Busca da Verdade (Editora EdUFSCar).  Organizado por James Green e Renan Quinalha, reúne nove artigos que analisam as relações entre a ditadura brasileira (1964-1985) e as lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais e transgêneros (LGBTs). Discute de que maneira a ditadura, mesmo sem empreender uma ação repressiva direta e sistemática, como ocorreu no caso dos militantes de esquerda que participaram de ações armadas, vigiou, perseguiu, puniu e dificultou a vida das pessoas pertencentes a esses grupos.

A repressão às pessoas LGBT não começou nem acabou com a ditadura. Mas, como observa Green numa das passagens do livro, a eliminação dos direitos democráticos e das liberdades públicas, com o golpe de 1964, facilitou a vigilância e a perseguição. Textos produzidos por militares e utilizados para nortear as ações dos serviços de segurança, na luta contra a “subversão”, frequentemente associavam a homossexualidade aos esforços da chamada máquina comunista que estaria minando valores e instituições no País.

Uma das consequências da repressão foi o atraso no desenvolvimento dos movimentos de defesa dos direitos dos homossexuais. Quando a ditadura se instalou aqui, já existiam nos Estados Unidos e na Europa, assim como na vizinha Argentina, grupos organizados revindicando mudanças nessa área.

Paralelamente à descrição e análise das violências, a coletânea não perde de vista as ações de resistência, nas suas mais diferentes formas. Logo no prefácio, o historiador Carlos Fico, um dos mais respeitados pesquisadores do País sobre o período ditatorial, observa que Ney Matogrosso e o grupo Dzi Croquettes, duas experiências artísticas tão criativas quanto ousadas, surgiram naqueles anos.

Um dos capítulos do livro é dedicado ao jornal Lampião da Esquina, que surgiu no fim da década de 1970 e, em três anos de existência, enfrentou a censura, a moral conservadora da esquerda e a intolerância da direita. Há um capítulo também para o Somos – Grupo de Afirmação Homossexual, o primeiro grupo LGBT no Brasil.

No capítulo final, Da Liberdade à Democracia, o professor José Reinaldo de Lima Lopes, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), aborda a diferença conceitual entre direitos de liberdade e direitos de identidade e acaba conectando o leitor às lutas de hoje. Na avaliação do autor, as lutas pelos direitos dos homossexuais ajudam a consolidar a democracia. Daí o fato de encontrar tanta resistência entre “os antidemocratas, os que se negam a retirar do sistema jurídico os elementos discriminatórios, os que defendem que os preconceitos sejam a base natural da lei”.

Green é professor de história do Brasil na Brown University, nos Estados Unidos, e autor dos livros Além do Carnaval: a Homossexualidade Masculina no Brasil do Século 20 e Apesar de Vocês: a Oposição à Ditadura Militar nos Estados Unidos, 1964-85. Quinalha é doutorando em relações internacionais na USP e autor do livro Justiça de Transição: Contornos do Conceito. Ele também assessora a Comissão da Verdade Rubens Paiva, na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Os outros autores da coletânea, primeiro e alentado esforço organizado para incluir a questão dos gays na historiografia da ditadura, são Benjamin Cowan, Jorge Câe Rodrigues, Luiz Gonzaga Morando Queiroz, Marisa Fernandes, Rafael Freitas e Rita de Cassia Colaço Rodrigues. O cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, integrante da Comissão Nacional da Verdade, e o deputado Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão Estadual da Verdade São Paulo, assinam artigos no posfácio do livro, ao lado de Green e Quinalha.
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O lançamento do livro em São Paulo está marcado para 27 de novembro.
Será na Biblioteca Mário de Andrade, a partir das 19 horas.

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